quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Até quando?

Tyler Clementi
Tyler Clementi era um garoto tímido e estudioso. Dedicava-se à música e tocava violino. Estudava na Universidade Rutgers, em Newark, perto de Nova York. Tinha 18 anos.

Quando soube que Tyler iria se encontrar com outro cara, o colega de quarto no dormitório da faculdade escondeu uma câmera de vídeo no quarto e filmou o encontro. Como se a brincadeira não fosse o bastante, o colega colocou as cenas na internet para quem quisesse vê-las.

Ontem o corpo de Tyler Clementi foi retirado das águas do Rio Hudson. Sua última mensagem na página do Facebook foi "Vou me jogar da ponte. Sinto muito".

Pouca gente consegue conceber a extensão do impacto que um ato de bullying tão cruel pode provocar na cabeça de um jovem gay tímido e inseguro. O sentimento insuportável de culpa, o pavor de decepcionar a família e os amigos, a vergonha imensurável. Enquanto a sociedade incentivar esta visão dos gays estes sentimentos existirão.

Eu sinto muito ódio e muito nojo das religiões, dos políticos conservadores, da sociedade burra, da hipocrisia e da mediocridade das pessoas, que conseguem criar um peso insuportável para um jovem no começo da vida como Tyler. Até quando?

A notícia completa:

Crime e Pecado

Contardo Calligaris é psicanalista e doutor em psicologia clínica. Também escreve para a Folha de S. Paulo, onde publica hoje um artigo imperdível sobre "Lobby cristão e casamento gay" (link para assinantes UOL). O artigo traz um subtítulo que resume toda a sua essência e representa o cerne de toda a controvérsia do mundo moderno com as religiões: "As igrejas gostariam de uma sociedade em que fosse crime tudo que, para elas, é pecado".

Ele descreve, muito melhor do que eu seria capaz de contar aqui, sobre a hipocrisia dos candidatos a presidente - que, para não perder votos, se vêem na obrigação de satisfazer todas as denominações religiosas em sua campanha. Pois a força das igrejas não é nada desprezível. E, de boazinhas, as igrejas não têm nada. O grande sonho de quase todas as igrejas é ter a força do estado. É poder ter um exército e uma polícia que batam à sua porta e o prendam se você estiver praticando sexo oral, fornicando com alguém do mesmo sexo, ou outras coisas assim. "O sonho escondido de qualquer Roma é Teerã ou a Cabul do Talibã", escreve Contardo Calligaris.

Contardo fala também sobre o casamento gay. E da vantagem de se viver em um estado laico. Pois aqueles que pregam a "santidade" do casamento entre um homem e uma mulher sempre vão estar livres para casar com alguém do sexo oposto e proteger a "santidade" do próprio casamento. Em uma teocracia as coisas não são exatamente assim. Quem vive em uma teocracia deve estar preparado para ser forçado a viver em uma moral que pode ser diferente da sua - e não ter outra escolha. Como, por exemplo, em uma teocracia gay em que todos fossem obrigados a casar com alguém do mesmo sexo. "Quem ambiciona impor sua moral privada como legislação pública deveria sempre pensar seriamente na hipótese de a legislação pública ser moldada por uma outra moral privada, diferente da dele".


ATUALIZAÇÃO: Quem não é assinante UOL pode ler o artigo aqui. Obrigado, Marta!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Amor em preto e branco

Há pouco mais de uma semana atrás eu falei aqui sobre o disco novo do Seal. Hoje foi lançada uma nova versão do vídeo da música Secret, com Seal e a esposa Heidi Klum nus. Seal e Heidi Klum estão casados há 8 anos e os amigos do casal são unânimes em afirmar que eles são um casal extremamente apaixonado e em constante lua de mel. E viva o amor!

Susan Falk e Jean McFaddin são gente que faz

Jean e Susan se conheceram há 40 anos, quando estudavam na Universidade do Texas nos anos 60. O pedido de casamento foi feito há 35 anos atrás mas, embora tivesse sido aceito de imediato, só pôde ser concretizado há duas semanas atrás.

É inspirador ver este momento feliz na vida de duas pessoas que se amam tanto e que conseguiram preservar este amor ao longo de quatro décadas. Ao mesmo tempo é triste saber que elas precisaram esperar tanto tempo para concretizar este sonho.

Também é um contra-senso saber que ao longo destes 40 anos muitos casais héteros se uniram e se separaram várias vezes. Há casamentos que duram somente algumas semanas ou alguns meses e a sociedade não vê nada de errado nisto contanto que o casamento seja entre um homem e uma mulher. Vários dos políticos que apresentam oposição ferrenha à lei da igualdade já estão no terceiro ou quarto casamento. Não é mesmo irônico?

Já beirando os 70 anos de idade, Susan e Jean nem precisavam se casar para provar que se amam. Elas já passaram aquela fase de precisar provar alguma coisa a quem quer que seja. Mas elas fizeram questão de servir de exemplo para outros que virão. Este tipo de atitude é de um altruísmo e desprendimento que não têm preço.

Vale a pena conhecer a história de Susan e Jean. Susan Falk e Jean McFadden são gente que faz.

Vácuo

Hoje eu acordei com a desagradável sensação de ter acidentalmente engolido um pedaço de vácuo. E da mesma forma das gemas cozidas de ovo que quando ingeridas teimam em ocupar um espaço maior do que seu próprio tamanho, sinto o vácuo crescendo dentro de mim. Estou ôco.

Olhei pela centésima vez para o calendário e contei mentalmente os dias que faltam para a chegada. Agora só faltam 3 dias. Ah, como é misterioso e intolerável o sentimento da saudade...

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Long afloat on shipless oceans
I did all my best to smile
Till your singing eyes and fingers
Drew me loving to your isles...

(Canção para a sereia)

Há algum tempo atrás eu escrevi aqui sobre o Tim Buckley, sobre a belíssima música Song To The Siren, e sobre como esta música tem uma relação com a morte em geral e com a morte de pessoas jovens mais especificamente.

Hoje eu revi o filme israelense The Bubble, que foi onde eu ouvi pela primeira vez sobre Tim Buckley e onde conheci Song To The Siren. A cena em que a música é apresentada me ficou na memória durante muito tempo. E mesmo que você não entenda hebraico, e eu também não entendo, acho que vai concordar comigo que a percepção do amor está acima de qualquer idioma dos homens.

   

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O pastor homofóbico e o flux capacitor de De Volta Para O Futuro

Eu às vezes tenho a impressão que o mundo não se move em sequência, mas fica se repetindo indefinidamente em pequenos loops de tempo. Uma coisa assim que só dá para explicar usando a teoria do continuum de tempo e espaço ativada pelo flux capacitor do Dr. Emmett Brown, o cientista maluco de De Volta Para O Futuro. É só pegar o jornal e vem uma sensação de déjà vu, de que tudo não passa de uma versão requentada de um passado que a gente já conhece.

Se eu disser por exemplo "pastor homofóbico envolvido em escândalo que expõe vida gay clandestina" você vai perguntar de qual versão eu estou falando. Dá para classificar as diversas reencarnações do evento por ano, por denominação religiosa, pelo teor das desculpas - você decide. É um tipo de evento preso no lapso do paradoxo do tempo. Que pelo visto vai continuar se repetindo ad infinitum.

A nova versão do acontecimento atende pelo nome de Eddie Long. Se você googlar o nome do fulano vai ver que ele convive com personalidades famosas, incluindo o presidente, então dá pra se ter uma ideia da importância do cara na sociedade americana. Na foto ele é abraçado pelo ex-presidente Bush, que faz aquela cara teatral de quem está em transe para mostrar que a graça foi alcançada. Apesar de ele ser péssimo ator a gente consegue entender o lance. Caso você não se lembre mais, o Bush é o de terno preto.

Pois bem, agora Eddie Long está sendo acusado por vários de seus "discípulos" - todos mocinhos muito pegáveis, porque de bobo o pastor não tem nada - de assédio sexual. Eram três processos até a semana passada, agora já são quatro - e outros ainda devem aparecer. As histórias são cheias de detalhes sórdidos - uma delícia!

Em defesa de Eddie Long veio Ted Haggard, outro pastor que já esteve em uma encarnação anterior desta mesma notícia. Justamente Ted Haggard, aquele que reúne sozinho todo o espectro homo: tem jeito de gay, cara de veado e voz de bichona. Olha aqui e depois me diz se eu estou exagerando.

A notícia ainda está muito quente. Eddie Long, obviamente, nega tudo. Se diz "muito macho" (leia-se 'machésimo'). Mas agora vazaram estas fotos dele com seu iPhone na frente do espelho. Eu olhei as fotos e o meu gaydar disparou acordando toda a vizinhança. Estas fotos fazem qualquer gaydar tocar mais alto que alarme de incêndio.

Da série "Era uma vez um pastor, um iPhone e um espelho"

domingo, 26 de setembro de 2010

Our Home

Teorias sobre o pós-morte sempre estiveram presentes em todas as culturas, independente de sentimentos religiosos. É um dos mistérios mais fascinantes da humanidade. Todos sabemos que vamos morrer, sabemos que não há como escapar, e não temos a menor ideia do que existe do outro lado - se é que existe alguma coisa. Eu sou completamente cético e acredito simplesmente na vida científica. Para mim, morreu, acabou. Mas, se é que tem alguém aí em cima tomando conta desta confusão toda aqui em baixo, saiba desde já que eu adoro surpresas.

Independente da crença (ou falta dela), o tema sempre rende ótimas histórias. O novo filme de Clint Eastwood Além da Vida (Hereafter, 2010) trata exatamente desta busca desesperada por respostas do além-túmulo que muita gente empreende principalmente depois de ter perdido alguém muito querido. Estreou bem nos Estados Unidos e tem estreia prevista para o Brasil em fevereiro do ano que vem. E já está tudo mundo comentando da cena impressionante do tsunami logo na abertura do filme.

E se você também gostou da música etérea que toca no trailer, trata-se de Lullaby, da cantora Sia.


sábado, 25 de setembro de 2010

Quando o Supremo não supremeia

Será que só eu estou com esta sensação que o nosso Supremo não está supremendo? Foram quase dois dias de votação para decidir se o Ficha Limpa vale ou não neste ano. A eleição chegando, o país inteiro esperando. E põe capa preta, e tira capa preta, e faz discurso, e lê conclusões, e bate boca, e discute, e bate, e rebate, e põe, e tira. E no fim dá empate! Que coisa mais brochante.

Há alguns meses atrás foi o caso do italiano Cesare Battisti. E no meio daquele fudevú internacional o Supremo decide que quem deve decidir é o presidente. Heloo-o-o-o!!? É mais ou menos como pagar um milhão de dólares para o melhor consultor do mundo dar uma opinião sobre algo muito importante e ele chegar à conclusão que você "deve fazer o que achar melhor".

Parece que estamos precisando de um STFM (Supremo Tribunal Federal Mesmo!) ou STF2 (Supremo Tribunal Federal Ao Quadrado) para os casos em que o Supremo não supremeia.

Injeção de ânimo

Quando eu acordo me sentindo assim meio parece-que-não-sei eu tomo uma injeção de ânimo para enfrentar o dia. Normalmente assistindo a uma cena como esta. E tudo fica melhor.


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Ainda dá pra piorar muito

Você provavelmente não conhece o senhor da foto aí do lado. Trata-se de Irapuan Teixeira, deputado federal pelo estado de São Paulo. Entre os projetos apresentados por ele está tornar a Bíblia leitura obrigatória no ensino médio. Ah, tem mais: ele também apresentou um projeto de lei tornando obrigatória a retirada de um dos órgãos duplos, como pulmão ou rim, de presidiários para fins de doação.

E daí você se pergunta como uma pessoa assim consegue se eleger deputado. É mais fácil do que parece. Irapuan Teixeira foi eleito com apenas 673 votos - bem menos do que a população do meu bairro.

Isto é possível pelo sistema de eleição partidária proporcional vigente atualmente no Brasil que se baseia no quociente eleitoral. Um deputado muito bem votado consegue 'puxar' votos para o partido e carregar consigo para o Congresso Nacional outros deputados com poucos votos. Irapuan Teixeira era do PRONA e foi eleito no vácuo da votação maciça recebida pelo candidato Enéas Carneiro em 2003. Outros 3 candidatos foram 'puxados' por Enéas naquela eleição, inclusive o deputado Vanderlei Assis com apenas 275 votos. Na mesma eleição o candidato Jorge Tadeu do PMDB teve mais de cem mil votos e não se elegeu.

O Enéas da eleição atual é o palhaço Tiririca. As últimas pesquisas projetam que o palhaço deve atrair mais de 1 milhão de votos e levar consigo para o Congresso Nacional outros candidatos que não passam de cancros abjetos. Tiririca mente quando diz que pior que está não fica. Ainda dá para piorar muito.

O meu problema com a Dilma é pessoal

Ontem finalmente me dei conta de uma verdade inalienável: o meu problema com a Dilma é pessoal! Para mim não faz nenhuma diferença se ela foi guerrilheira ou não, se ela tem um ótimo projeto para o país ou não, se ela está cheia de boas intenções ou não. Eu não gosto dela. Ponto. Simples assim.

No jargão dos responsáveis pelo marketing de campanha este sentimento é o que chamam de "rejeição". Não gosto da cara dela, não gosto da voz dela, não gosto do jeito dela, e se ela disser que o amarelo é bonito eu vou passar a odiar o amarelo.

Um sentimento de rejeição gratuito e sem qualquer fundamento é uma coisa horrível. É exatamente o que tanto tentamos combater naqueles que não nos aceitam como somos. Por isso eu sinto até um certo alívio ao perceber que a minha rejeição tem uma base muito racional.

O sentimento nasceu e foi se agravando com o tom desafiador, arrogante e antipático que ela não fazia questão de esconder quando ainda não era candidata. Antes daquele episódio da entrevista sobre o apagão em que ela virou para a repórter e disse em tom presunçoso e irritado "você está confundindo uma coisa, minha filha" acho que a minha rejeição ainda estava na casa dos 80%. Foi aí que o ponteiro pulou para o fundo da escala. Eu simplesmente A-BO-MI-NO este jeito cruel de demonstrar soberba e desprezo por quem está em posição inferior.

O fato de Dilma não ter história política só piora as coisas. A falta de preparo intelectual também não ajuda. Mas mesmo que tudo isso pudesse ser sanado, mesmo que tudo isso pudesse ser de alguma forma reparado, ela continua sem 1 única grama do principal antídoto natural contra a rejeição: o carisma.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ela disse não

Conheça Mary McAleese, atual presidente da Irlanda, já em seu segundo mandato. Mary tem 59 anos, o marido é contador e dentista, e eles têm 3 filhos. Mary McAleese é ativa defensora dos direitos dos homossexuais na Irlanda. A Irlanda reconhece a união de casais do mesmo sexo por meio de contratos de parceria civil.

Esta semana Mary fez a diferença. Recebeu um convite para ocupar a honrosa função de grand marshal - espécie de mestre de honra - do tradicional desfile do Dia de St. Patrick em Nova York, neste ano em que o evento comemora 250 anos. Sabe o que ela fez? Recusou o convite devido ao tratamento não igualitário que os gays recebem na parada.

A prefeitura de Nova York sempre tentou 'enquadrar' os gays neste evento tão tradicional e nunca permitiu que eles desfilassem com suas próprias bandeiras. Mary McAleese não concorda. Recusou o convite, deixando os anfitriões embasbacados e com cara de tomate esquecido na feira.

No dia em que aqueles que acreditam que todos os cidadãos são realmente iguais começarem a agir como Mary McAleese teremos dado mais um passo para um mundo melhor.

O prendedor de cabelo e a paz mundial

No domingo passado Hillary Clinton participou de uma reunião nas Nações Unidas para definir políticas para o Haiti e o Paquistão. Mas bastou ela aparecer com este prendedor de cabelo de gosto duvidoso que as prioridades dos jornais do mundo inteiro se alteraram.

Os jornais de metade do mundo acharam um horror que a mulher mais fodona do mundo aparecesse para uma reunião com este look assim de quem acabou de fazer faxina no banheiro. E os jornais da outra metade do mundo acharam que justamente por ser a mulher mais fodona do mundo ela tem o direito de se vestir como quiser e quem não gostar que coma menos.

Se eu fosse a Hillary na próxima reunião eu iria com um abacaxi na cabeça. Assim garantiria que nas 24 horas seguintes nenhum jornal ao redor do mundo teria espaço para falar de guerras e outras notícias ruins.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Eles voltaram com tudo!

Nos Estados Unidos setembro é mais ou menos como o período logo após o carnaval por aqui. É o fim das férias de verão e início do ano letivo nas escolas. E a volta das aguardadas novas temporadas das séries de televisão!

Ontem foi exibido o primeiro episódio da segunda temporada de Glee. Que, graças à moderna tecnologia, já está disponibilizado por todos os sites brasileiros organizados por fãs amadores que conseguem ser mais rápidos e mais eficientes que qualquer grande corporação ou governo. Às vezes eu fico me perguntando porque esta gente das grandes empresas não para para aprender um pouco com estes jovens que fazem sites incríveis na internet motivados unicamente pela mais pura das paixões: o tesão imensurável de se fazer o que se gosta.

Glee é mesmo uma coisa inexplicável. Tem um roteiro falho, diálogos meio infantilóides, e um protagonista de 28 anos de idade fazendo papel de um rapaz de 16. Mas tem um charme incrível e números musicais que vão entrar para a história. É como uma droga que vicia. Eu já estava começando a ter crise de abstinência nestas férias.

O primeiro episódio da segunda temporada traz ótimas surpresas. Finn (Cory Monteith) voltou muito mais bonitinho e gostosinho - o que parecia impossível. Tem uma nova professora de educação física na jogada. O episódio termina com um número lindíssimo de What I Did For Love (de Chorus Line). "But I can't regret what I did for love" tem tudo a ver com tudo.

Mas o ponto alto foi a participação da Charice, aquela garotinha das Filipinas que tem deixado todo mundo com a boca aberta por todos os lugares onde passa:

O Mr. Ed

Se pedissem para todas as pessoas do mundo darem as mãos em ordem de afinidade, talvez eu e o Mr. Ed ficássemos cada um em um dos extremos da fila. Somos completamente diferentes. No jeito de ver as coisas, no modo de vestir, no gosto musical. Em tudo. A vantagem é que se resolvessem fazer uma grande roda das pessoas de mãos dadas nós ficaríamos exatamente um do lado do outro unindo a grande fila em um círculo.

Ele acorda às 5 da manhã. Às 5 e meia já começou a correr. Nas corridas, sempre encontra com um monte de gente com cara de ontem voltando das baladas. Às 7 ele normalmente está na piscina. É o ambiente onde ele se sente mais à vontade. Acho que se pudesse ele nadaria o dia inteiro. Eu já disse que mais dia menos dia ele vai começar a desenvolver guelras. No final do dia, ele começa a apagar por volta das 8 da noite. Às 9, se ainda não foi para a cama, vira um zumbi.

Ele não liga para grifes, para os últimos lançamentos musicais, para tecnologia, para moda. Não usa celular. Ele já leu este blog umas 2 ou 3 vezes, mas só porque eu o coloquei na frente do computador e mostrei para ele o que eu estava fazendo.

Eu achava antes que para conviver com alguém a gente tinha que ser muito parecido. Hoje não tenho a mesma opinião. Conviver com o oposto exige um exercício diário de paciência e tolerância que faz muito bem. Às vezes é muito difícil, mas o resultado final é sempre positivo. E com maturidade a gente aprende a trabalhar os pontos de conflito e evitar os desgastes.

Há 3 semanas eu me despedi do Mr. Ed no aeroporto de São Paulo com um abraço forte e demorado. Ele está na Espanha percorrendo o caminho de Santiago de Compostela, pelo simples prazer de caminhar. Feliz da vida por caminhar 30 a 40 quilômetros por dia carregando nas costas uma mochila de 7 kg. Feliz da vida porque em 7 kg ele conseguiu colocar mais do que ele precisa para viver. E eu estou aqui tentando não enlouquecer nestes 15.840 minutos que ainda faltam para encontrá-lo novamente.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Eu gosto de sentir a minha língua roçar na língua dos outros

Ao chegar ontem à cantina self-service que eu costumo frequentar deparei-me com o seguinte aviso: "PEDIMOS DESCULPAS AOS BONS CLIENTES MAS DEVIDO AOS MAUS PAGADORES NÃO ESTAMOS ACEITANDO CHEQUES NEM CARTÕES". Força do hábito de trabalho eu vivo traduzindo mentalmente quase tudo que vejo pela frente. E me veio à cabeça o que um falante nativo do inglês provavelmente usaria neste caso: "CASH ONLY". E me dei conta, mais uma vez, de como o brasileiro é muitas vezes forçado, pelo idioma e pela cultura, a dar voltas vertiginosas para expressar algo que o falante do inglês diria de forma muito mais direta e assertiva, sem usar desta verborreia que embute desculpas e explicações dispensáveis resultantes de nossos traços culturais.

Não tenho nada contra o idioma português. Muito pelo contrário. Adoro línguas em geral, e me maravilho com cada aspecto cultural inerente a cada idioma. Nenhuma língua é melhor ou pior do que a outra, e todas devem ser apreciadas e entendidas com suas idiossincrasias próprias. Mas às vezes dou graças a deus por não ser um tradutor literário. Ah, como estes devem sofrer! Pelo menos na língua dos processos jurídicos, contratos internacionais e documentos legais parece que há um pouco mais de lógica.

Que a língua carrega um grande componente cultural todo mundo sempre soube. O que se estuda atualmente é a via contrária: como a língua afeta o comportamento daquele que se expressa por meio dela. E é este o tema de um artigo interessantíssimo publicado há duas semanas no New York Times: Does Your Language Shape How You Think?. E a resposta é um estrondoso "sim". Nós somos reflexo da língua que falamos. E isto talvez explique em parte este jeito meio enrodilhado e pouco assertivo que todos sabemos fazer parte da nossa cultura. Resumindo, nós brasileiros temos uma tendência a falar de forma rocambólica e rococóica e a agir de forma idem.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Na pauta de metal

Olhar para os pássaros nos fios dos postes e imaginar notas musicais em uma pauta de metal não é ideia nova. Há muitos anos atrás o poeta Cassiano Ricardo escrevera:
      "Nos fios tensos da pauta de metal
        As andorinhas gritam
        Por falta de uma clave de sol."

Muitos anos mais tarde o poema foi musicado e incluído como uma trilha curta, com menos de 1 minuto, no disco de estreia dos Secos & Molhados

Leonard Cohen também explorou o tema com uma visão um pouquinho diferente na belíssima Bird On A Wire. A música ganhou gravações consagradas de vários cantores famosos, e talvez a mais conhecida e também uma das mais bonitas seja a gravação do Aaron Neville

Este tema recorrente volta agora com criatividade aliada à tecnologia moderna. O vídeo Birds On Wires do brasileiro Jarbas Agnelli foi escolhido hoje como um dos 20 finalistas do concurso patrocinado pelo YouTube e o Museu Guggenheim de Nova York para premiar os vídeos online mais notáveis. Jarbas Agnelli fez uma montagem muito criativa incluindo a música resultante das posições dos passarinhos nos fios. Vale conferir:

Meg Hutchinson

"...E quando você já não sentir medo de dizer
Eu nunca mais sentirei medo de escutar..."

Foi com versos lindos assim que Meg Hutchinson chegou. De uma pequena cidade de Masschussetts, filha de professores, na adolescência Meg Hutchinson já tinha tido bastante contato com os grandes poetas contemporâneos. E foi nas obras de Mary Oliver, Robert Frost e William Yeats que ela foi buscar inspiração. O cenário natural de montanhas, rios, lagos e relvas de sua região natal também serve de musa para suas composições.

Seu registro vocal grave de tom reconfortante é o veículo ideal para transportar seus versos inspirados.


"...And when you're not afraid to stay
I won't be afraid of morning
And when you're not afraid to say
I will never be afraid to listen.
I'd like to know someone
Who knows I came undone once
I'd like to know someone
Who knows deep where they come from..."


Meg Hutchinson - I'd Like To Know: 



Gostou e quer guardar para sempre? Tem aqui.

domingo, 19 de setembro de 2010

Oh, my god!!

O ateísmo tem crescido drasticamente, mas pouca gente percebe. É um grupo de baixíssima visibilidade. Não têm templos, não fazem campanha, não batem à sua porta para pedir nada, não têm reivindicações, não espalham ameaças, enfim... não enchem o saco de ninguém. Existem silenciosamente.

Declarar-se ateu no passado era quase uma sentença de morte. O exercício de uma religião era associado a princípios éticos e morais. Quem não tinha religião não era bom. Hoje, longe da idade das trevas, a dissociação das duas coisas é muito clara para todas as pessoas esclarecidas. Há ateus muito bons, éticos e morais, da mesma forma que há religiosos péssimos, aéticos e amorais.

Cerca de 65% da população do Japão se declara ateísta. Na Dinamarca este número sobe para 80% e na Suécia para 85%. Não é difícil traçar um paralelo direto entre ateísmo e desenvolvimento, e não foi só o Caetano Veloso que já percebeu a "incompetência da América católica". Foi-se o tempo em que a igreja conseguia catequizar povos à força para salvá-los das garras do diabo - argumento que nos dias de hoje soa absolutamente risível.

Mas é nesta visita ao Reino Unido que o papa está sentindo de perto o quanto sua igreja está ficando desimportante. 40% da população da Escócia, cerca de 2 milhões de pessoas, atualmente se considera muito bem sem deus, obrigado. E fez questão de deixar isso bem claro em uma campanha feita para coincidir com a visita do pontífice. Chegando em Londres, o cenário não foi diferente. Com a sutileza de um elefante manco histérico, o papa fez um discurso equiparando o ateísmo ao nazismo. Na hora errada, no lugar errado.

Como se a própria evolução da sociedade já não bastasse para erodir a importância da igreja, a eleição de um papa sem carisma que tem sido extremamente inábil na gerência da crise gerada pelos escândalos sexuais do clero tem cuidado do resto. Nunca uma visita papal foi acompanhada de protestos tão intensos. O mundo está mudando. E mudando bem depressa.

sábado, 18 de setembro de 2010

Seal 6: Commitment

Com data oficial de lançamento para 28 de setembro nos Estados Unidos, vazou ontem na internet o novo trabalho de Seal - 6: Commitment. Eu conhecia as músicas do Seal mas não era grande fã até o lançamento do álbum Soul de 2008 em que Seal interpreta grandes clássicos da soul music. Eu fui completamente tomado por Soul desde o primeiro momento por já ser fã incondicional de todas aquelas grandes músicas e, por associação, acabei virando grande fã do Seal.

Ontem eu comecei a ouvir 6: Commitment com a cautela que todo novo trabalho merece. Passei por If I'm Any Closer, fui para Weight Of My Mistakes, passei para a faixa 3, Silence, e comecei a perceber que o novo trabalho de Seal é um daqueles discos raros em que todas as faixas têm grande potencial de sucesso. As músicas não têm aquela propriedade de gosto adquirido pelo uso que requerem exposição prolongada para desenvolver a apreciação. Têm sim aquela capacidade mais visceral de produzir amor à primeira vista, aquele tesão gostoso que começa já nos primeiros acordes.

Quando cheguei à faixa 8, Secret (mostrada no vídeo abaixo), que havia sido apresentada há um mês atrás como single do novo trabalho, já estava plenamente convencido que 6: Commitment vai ser para a carreira de Seal o que Faith foi para a carreira de George Michael: aquele trabalho que representa um ápice de inspiração e primor em todas as faixas. As 11 faixas de 6: Commitment parecem ter sido feitas com pura alma. É para apertar o play e depois o repeat e esquecer da vida.


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Em lua-de-mel

Guido Westerwelle (de óculos nas fotos), o bonitão ministro das relações exteriores da Alemanha, não é mais um homem solteiro. Ele casou-se hoje com seu namorado Michael Mronz. Os dois estavam juntos há vários anos e sempre participaram das cerimônias oficiais de estado como casal.

O casamento foi realizado em Bonn pelo prefeito da cidade Jürgen Nimptschin. Os noivos optaram por uma cerimônia simples, com família e amigos mais íntimos.

Embora Guido seja responsável pelas relações exteriores, não há notícias de que o papa tenha sido convidado. Fontes oficiais do Vaticano não confirmaram, mas há rumores que o Vaticano teme que uma imensa bola de fogo engula toda a Alemanha nas próximas horas.

Ao simpático casal, votos de muita felicidade.

Eu ouço vozes

De todos os sons e ruídos que eu conheço, o que eu acho mais irritante é o som da voz humana com validade vencida.

Minha família sempre foi de poucas palavras. Até hoje tenho uma cumplicidade silenciosa com o meu pai que é inexplicável. Sempre que saímos juntos e vemos algo engraçado ou inusitado trocamos um olhar rápido e rimos os dois sem precisar falar ou explicar nada. Tem coisas na vida que se a gente ficar explicando muito perdem a graça. Minha família nunca precisou ficar discutindo a relação para se dar bem.

Hoje não moro mais com meus pais, mas sempre que saímos ou que vou visitá-los e tomamos café juntos, e comemos bolo de fubá ou pastel de carne - que eles adoram! - também curtimos deliciosos momentos de silêncio. Sem nenhum constrangimento.

Mas, voltando ao assunto do início, eu acho extremamente irritante continuar ouvindo a voz de uma pessoa que não se deu conta de que já passou a hora de fechar a boca. Voz vencida, para mim, é o fim! No sábado passado, em um almoço de trabalho, eu me vi sentado ao lado de uma mulher que falava sem parar - daquelas que começam a ficar com a saliva acumulada no lábio inferior e sem piscar vão emendando uma frase na outra, na outra, na outra... Eu cheguei a considerar a ideia de simular um desmaio para ver se interrompia aquele gralha. Um horror!

Talvez por gostar tanto de silêncio eu me sinta tão contente ao descobrir vozes especiais que parecem ter um respeito enorme pelo ouvido dos outros. Como a voz do Antony Hegarty, o vocalista do Antony & The Johnsons. Acho que nunca vão conseguir entender o mistério que existe na voz deste cara. A gente vê aquela cara feia de um quase ogro, e quando ele canta vem aquela voz que ninguém explica... Nossos ouvidos agradecem.

Antony Hegarty

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A casa mal assombrada

Era uma vez uma casa muito mal assombrada. Ninguém dava muita importância para ela. Mas então a casa ganhou vida própria e começou a produzir monstros. Muitos montros. Montros terríveis. E um perigo muito grande começou a rondar aquele reino.

Não pergunte. Não conte.

Imagine que um cidadão negro comece a trabalhar para um chefe cego que não tolera trabalhadores negros. O cidadão negro recebe então a instrução de nunca deixar o chefe cego perceber que ele é negro, ou perderá o emprego. E o chefe cego concorda em nunca perguntar a qualquer de seus empregados sobre a cor de suas peles. Se descobrir de alguma outra forma que o empregado é negro ele o demitirá em seguida.

Surreal? Pois a política "Don't Ask Don't Tell" (DADT) empregada nas forças armadas americanas funciona mais ou menos assim para os gays. Estabeleceu-se que as forças armadas nunca vão questionar a sexualidade dos soldados ("don't ask") e que os soldados não devem revelar sua orientação sexual ("don't tell"). E enquanto o soldado conseguir esconder sua condição homossexual ele será aceito. Se for denunciado, ou se houver prova irrefutável que ele é gay, será exonerado sumariamente.

Esta é uma das formas de preconceito mais insidiosas que pode existir, pois institucionaliza a hipocrisia. É uma política pérfida baseada no "tudo bem ser gay contanto que ninguém fique sabendo". Obriga os soldados homossexuais a negarem sua própria natureza, e a viverem com o medo constante de serem descobertos ou denunciados. O sentimento de "orgulho" duramente trabalhado na história das conquistas dos gays americanos é substituído nas forças armadas pelo sentimento da "vergonha".

A lei que estabeleceu a política do "Don't Ask Don't Tell" tem sido combatida pelos ativistas de defesa dos direitos civis e é cada vez maior o movimento por sua revogação. O grupo Log Cabin Republicans, formado por gays republicanos, entrou com uma ação contra a lei em 2004. Esta ação foi finalmente julgada esta semana e a lei considerada inconstitucional por uma juíza federal. Mas ainda há várias ações e recursos tramitando e, na prática, nada mudou.

Desde que a lei foi criada em 1993 mais de 13.000 servidores foram exonerados das forças armadas americanas pelo simples fato de serem gays, incluindo militares condecorados e com comprovado histórico de heroismo em combate. Um dia a gente vai olhar para trás e custar a acreditar que uma lei assim tão vergonhosa realmente existiu.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Nós acreditamos na salivação

A nova campanha publicitária dos sorvetes Federici na Inglaterra está dando o que falar. E parece que foi feita sob medida para a visita do papa no próximo final de semana.

A seleção de temas polêmicos não poderia ser melhor. Dois padres, um branco e um negro, quase se beijando, com o slogan "nós acreditamos em salivação". Hum...!

Ou uma freira grávida, com o slogan "concebido de forma imaculada".

A igreja, obviamente, está em polvorosa. Até imagino a correria no Vaticano, batinas correndo pra lá e pra cá, sapatinhos Prada a subir e descer escadas nervosamente, caras e bocas de indignação - e lá no fundo aquele sorrisinho maroto de quem achou as fotos deliciosamente impudicas e despudoradas, e irresistivelmente provocantes.

Só faltou mesmo colocarem padres com garotinhos para completarem todo o leque de pecados sexuais do clero. Mas aí seria óbvio demais.

Agora com licença que eu vou sair para tomar um sorvete. Eu também acredito em salivação.



Ela é a glória!

De loira a morena, para acabar com a cara de biscate
Eu termino cada episódio de Modern Family completamente apaixonado por algum dos personagens. Houve um tempo em que eu estava completamente apaixonado pela Gloria, a colombiana gostosona de sangue quente e sotaque impagável feita pela atriz Sofia Vergara. A atriz declarou recentemente que sua sorte mudou depois que abriu mão do loiro natural dos cabelos e se fez morena. Segundo ela, não importa o que fizesse antes, com aqueles peitões ela sempre ficava com cara de biscate.

Divertido mesmo foi descobrir que Gloria não é exatamente um personagem da ficção. O personagem foi escrito especialmente para Sofia e aproveita quase tudo dela: o sotaque forte (que é real!), o jeito latino espalhafatoso, e principalmente seu incrível senso de humor. Ela é literalmente uma mulher bicha. Descobri há pouco tempo esta entrevista deliciosa que ela deu no programa da Ellen. Sofia Vergara é a glória!!


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Fala sério!

Uma das grandes dificuldades da luta pela igualdade dos direitos dos homossexuais no Brasil é que grande parte dos maiores interessados não está nem aí. Só estão mesmo interessados nas futilidades de se colocar, zoar, ficar, aparecer. Há pouca organização política. O nível de mobilização é geralmente bastante baixo, exceto se a festa incluir uma grande zoação como são as paradas gays daqui. Um imenso carnaval.

Poucos noticiários no Brasil registraram as companhias escolhidas por Lady Gaga para ir ao VMA receber seus merecidos prêmios no final de semana passada. Pouca gente por aqui ficou sabendo que ela estava escoltada por Mike Almy, ex-major da força aérea, Stacy Vazques, ex-primeira sargenta do exército, Katie Miller, ex-aluna da academia militar de West Point, e David Hall, ex-sargento da força aérea. Todos eles recentemente exonerados da carreira militar pelo simples fato de serem gays. Escolhê-los como escolta de honra foi uma ótima forma de demonstrar apoio aos militares exonerados, aos gays tantas vezes discriminados não só na carreira militar mas também na vida civil, e uma clara forma de repúdio à política americana do "Don't Ask Don't Tell" que determina que um gay só pode atuar na carreira militar se permanecer no armário. Também uma forma de homenagear seu grande número de fãs gays militares que apareceram em vídeos dublando suas músicas enquanto serviam no Iraque ou no Afeganistão.

Uma pena que o fato passou batido no noticiário daqui. Os fãs brasileiros de Lady Gaga parecem mais interessados na descrição de seus trajes provocantes e de suas caretas. Estava na hora de aprenderem também com suas posições políticas. Embaixo daquelas fantasias tem um cérebro.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Want more?

Eu ia escrever um monte de coisas. Mas fiquei sem palavras...

Gente do interior

Eu conheço algumas criaturas muito bizarras. Gente que acaba se cobrindo de uma casca de afetação tão espessa que termina por se transformar em um personagem.

Todos usamos cascas. São proteções para convivermos com segurança em ambientes hostis. Tem a casca que a gente veste para ir para o trabalho, a casca para enfrentar a família, a casca usada para conquistar aceitação social, e assim vai.

Uma das mais engraçadas, na minha opinião, é a casca da sofisticação. Principalmente nas cidades maiores é mais fácil perceber um grau de afetação nas pessoas que querem evidenciar sofisticação. Como se pessoas refinadas e elegantes não pudessem ser simples.

Eu admiro muito o despojamento e a simplicidade das pessoas do interior. Em uma cidade do interior, onde todo mundo conhece a origem e a história de todo mundo, não há oxigênio para que as cascas de sofisticação se desenvolvam e virem afetação.

Eu fotografei este moço em São Luiz do Paraitinga. Cidadezinha linda, vale a pena uma visita. A cidade sofreu uma hecatombe com as chuvas do começo do ano mas está se recuperando bem. Eu passava por um casarão sendo restaurado e ele estava lá, de maçarico na mão e compenetrado no trabalho, nem percebeu que eu o fotografei. Esta gente simples do interior tem um charme imenso.

domingo, 12 de setembro de 2010

O fim dos jornais de papel

Será que todos os jornais e revistas de papel vão acabar desaparecendo um dia? Porque tem coisas que os leitores eletrônicos como o iPad ainda não conseguem fazer.

Joshua James

Não era minha intenção publicar tantos posts de música assim tão em seguida. Mas acho que não haverá outro momento mais propício para falar de Joshua James.

Nenhum outro compositor conseguiu falar da guerra do Iraque, do ataque às torres gêmeas, da revolta contra deus e contra o presidente, de forma tão contundente como Joshua James em Crash This Train. E seus versos adquirem um significado especial nesta semana em que foi anunciado o fim da intervenção americana no Iraque e que se comemorou o aniversário do ataque às torres.

Este menino do interior do estado de Utah gosta de falar de tragédias familiares, política e religião em suas composições. Sua voz consegue transmitir toda a inquietação e o desassossego que se escondem atrás de seu olhar quase infantil.




"...Have you ever seen the President who killed your wounded child?
Or the man that crashed your sister's plane claiming he was sent of God?
And when she died in your arms late that night in the dark, did you pray to your God to come home?
'Cause it ain't fair to say that these tracks are the same..."


Joshua James - Crash This Train: 



Gostou? Se quiser guardar para sempre está aqui.

sábado, 11 de setembro de 2010

Richard Vaughn e Tommy Woelfel são gente que faz

Richard Vaughn e Tommy Woelfel, um é advogado o outro é ator e instrutor de spinning, moram em Los Angeles e estão juntos há cerca de 10 anos. Em 2008 eles se casaram e resolveram ter filhos. Richard e Tommy passaram por todo o processo de escolha de doadora do óvulo, fertilização, e gestação por uma segunda mãe-hospedeira. De julho de 2008 a maio de 2009 eles mantiveram um blog contando todos os detalhes do processo e narrando a espera, a ansiedade, os exames, e finalmente a alegria e a felicidade de se tornarem pais dos gêmeos Aiden e Austin.

Os paizões Richard e Tommy, e os geminhos Aiden e Austin, formam uma família linda e inspiradora. As fotos falam por si. Richard Vaughn e Tommy Woelfel são gente que faz.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Mão boba

O Maroon 5 em breve estará com disco novo na praça. O lançamento oficial é para 21 de setembro, mas a data do vazamento para a internet foi hoje mesmo - e eu estou gostando muito do que tive tempo de ouvir até agora. Mas eu sou fã, e elogio de fã é sempre suspeito.

Adam Levine
Já comecei gostando da capa bem humorada de Hands All Over. E bem humorado também é o clipe de Misery - extremamente sexy e violento, mas com aquela violência de desenho animado onde ninguém se machuca. No melhor estilo "me bate, me sacode, me esbofeteia, mas não me despenteie".

Agora, é impressão minha ou a idade está fazendo muito bem ao Adam Levine e o deixando cada vez melhor?


John Ondrasik

John Ondrasik atende também pelo pomposo nome de Five For Fighting. Embora pareça nome de conjunto de rock progressivo, é mesmo só um nome artístico criado para diferenciar de seu nome particular. O Five For Fighting é só o John e seu inseparável piano.

John Ondrasik tem, na minha opinião, uma das vozes mais bonitas da atualidade. Uma das poucas vozes que têm uma dimensão extra: textura. E com o timbre e a dose de fragilidade exatos para servirem de veículo para suas composições carregadas de significado e sensibilidade. Ele consegue fazer as palavras tocarem a gente com uma força quase física.



"Lonely... yeah, that's the word.
I leave my heart when I leave her.
The days go on forever and the nights do too.
One evening out on the road
Half a world away from home
I thought she was sleeping when the call came through
I said "Darling, it's late, is everything okay?"
And silence took over the room ..."



John Ondrasik (Five For Fighting) - I Just Love You: 

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Homossexual e católico são características mutuamente excludentes?

Há algum tempo atrás fui visitar um amigo gay e me surpreendi com a decoração da casa dele. Na entrada, uma bíblia aberta sobre um suporte de madeira. Na parede da sala, um grande crucifixo com um Cristo de cara sofredora. Eu me incomodo um pouco com símbolos religiosos muito ostensivos. Símbolos religiosos carregam um significado muito profundo e não deveriam ser dispostos assim como se fossem um vaso de flor.

Também me incomodo muito com a forma como algumas pessoas absorvem de suas famílias uma religião como se isso fosse um traço genético hereditário inquestionável, sem parar para pensar que religião, ou falta dela, é uma escolha pessoal. Vejo pessoas sofrendo com o que consideram o pecado da homossexualidade pelo fato de se considerarem católicos. E me pergunto: é possível ser homossexual e católico? Ou são características mutuamente excludentes?

Quem tem esta dúvida deveria começar por outra pergunta: por que um homossexual optaria por adotar e seguir uma religião que o considera uma aberração abominável? Para mim, é o mesmo que um negro teimar em se filiar à Klu Klux Klan. Não faz o menor sentido. O catolicismo não vai mudar para aceitar os gays. No máximo pode, e deve, respeitá-los. Mas por definição jamais poderá aceitá-los.

O problema que eu vejo é que muita gente acha que tem obrigação de ser católico por herança familiar. E aí começa o eterno conflito desgastante e sem solução. Mais ou menos como se eu me visse na obrigação de ser vegetariano embora eu coma carne. Provavelmente eu sairia por aí dizendo para todo mundo que sou vegetariano e depois comeria carne escondido (aliás, este tipo de comportamento não é bastante familiar?). E não adianta ficar reclamando que os vegetarianos têm que ser mais compreensivos e aceitar os carnívoros. Por definição, quem come carne não é vegetariano! Para mim, um gay católico é que nem um vegetariano que come carne.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Tem aquela...

Tem aquela que vive de tailleur vermelho. Ela deve ter gastado uma fortuna em operação plástica para eliminar a cara de bulldog. Agora tem cara de poodle. Ela é bem ensinada. O barbudo fala 'pula!' e ela pula. O barbudo fala 'senta!' e ela senta. Ela tinha a delicadeza de uma caminhoneira búlgara bêbada. Agora parece uma caminhoneira búlgara bêbada que exagerou no Prozac. Você deve ter recebido um montão de e-mails dizendo que ela é ex-terrorista, mas não acredite nesta gente mal informada que fica espalhando mentiras pela internet. De "ex" ela não tem nada. Ela me aterroriza até hoje.

Tem também o careca com cara de adolescente punheteiro - aqueles que vivem amarelos, com olheiras profundas e constante cara de anemia. Ele parece que está fazendo um esforço tremendo para manter a fisionomia séria enquanto imagina um montão de bobagens e perversões. Às vezes nem consegue conter um sorrisinho travesso no canto da boca. Deve estar imaginando a caminhoneira búlgara só de calcinha de couro, bota e chicote.

Tem aquela do coque. A que adora usar colares indígenas. É a única que tem uma solução concreta para todos os problemas do país. Mas esta solução envolve todos os brasileiros dando-se as mãos e repetindo 'Xô, satanás!' três vezes, então não estou pondo muita fé. Ela acredita em Adão, Eva, céu, e inferno. E em serpentes que falam e expulsam casais do paraíso. Eu tenho muita dificuldade em botar fé em pessoas que acreditam em serpentes que falam. Não é nada contra o bicho. Eu também não ponho fé em pessoas que acreditam em macacos falantes, cachorros falantes, ou corujas falantes.

Ah, e tem também aquele outro velhinho enfezado que parece doido para chutar o pau da barraca. Tem cara de quem ainda tem um poster do Che enfeitando o quarto, escrito embaixo 'Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás'. O 'hay que endurecer' eu até topo, mas em outro contexto. Antigamente diziam que eles comiam criancinhas. Hoje em dia estão tão desprestigiados e fora de moda que já não podem mais se dar ao luxo - estão comendo qualquer coisa mesmo.

Ah, e tem aquele...

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O lar deles

Ontem fui assistir ao filme "Nosso Lar", baseado nos relatos psicografados por Chico Xavier que descrevem a vida após a morte. Eu não acredito em nada disso. Para mim, vida e morte são estados puramente científicos. Morreu, acabou. Não acredito nem em religião, muito menos em deus. Obviamente isto não me impede de assistir ao filme e de me divertir bastante. Eu também não acredito em homem que voa e adoro os filmes do Superman.

Agora, se o filme pretende arrebanhar simpatizantes então eles vão ter que melhorar muito o marketing do pós-morte. Porque a vida pós-morte mostrada por eles é um porre de chata. Agradeço, mas dispenso.

Mas o melhor de tudo foi constatar, mais uma vez, que o quê as pessoas acreditam ou deixam de acreditar não tem a menor importância. Não muda absolutamente nada no mundo, nem uma gota d'água. Se eu decidisse começar a acreditar, neste exato momento, nos preceitos de qualquer uma das mais de mil religiões diferentes disponíveis no mercado, eu iria olhar em volta e perceber que nada mudou. Minha vidinha iria continuar exatamente igual. E tem gente que morre por causa de religião. E tem gente que mata por causa de religião. Eu acho isso de uma burrice sem tamanho...

Bom de bunda

Resultado de miscigenação, dos exercícios para fortalecer os glúteos, ou de uma mistura disso tudo, o fato é que o brasileiro tem a sorte de ser, em geral, bom de bunda.

Aquele site americano que já tinha falado aqui que publica fotos de homens comuns das ruas de Nova York tem também uma seção com fotos de bundas de homens que passeiam pelas ruas da cidade.

Porque o homem tem que ser bom de frente e de verso.

domingo, 5 de setembro de 2010

Assim na terra como no céu

Esta é aquela época do ano em que eu sempre volto a acreditar que deus existe. Foi apresentada ontem a capa da edição 2011 do já clássico calendário Dieux du Stade, a ser lançado na Europa no final do mês e nos Estados Unidos em outubro. Na capa o atleta de nome impronunciável e olhar indecifrável Dimitri Szarszewski.

O fotógrafo desta edição é o francês François Rousseau, que já havia feito a edição de 2004, da qual a foto abaixo acabou virando um ícone.

Só sei que quando eu morrer eu quero ir para o céu e ficar bem pertinho de deus. Ou dos deuses.


sábado, 4 de setembro de 2010

Sinapse errada

É muito interessante a forma como fazemos associações mnemônicas para memorizar dados. Depois de décadas criando um gigantesco banco de dados dentro de nossas cabeças as associações de ideias oferecem possibilidades inimagináveis de ligações.

Na semana passada eu falei ao telefone com uma cliente que se identificou como Diana - e automaticamente pensei "deusa da caça". Ontem, quando fui entregar o trabalho cheguei perguntando pela "dona Deusa" e obviamente não havia ninguém lá com este nome. Depois de muitas explicações cheguei à dona Diana, e quando me dei conta da confusão que havia feito senti muita vontade de rir. Resolvi nem explicar, porque para ela talvez não fosse assim tão engraçado.

Senti-me como aquele cara da piada que, quanto mais se aproximava a data da chegada da nova chefe, uma tal dona Valgina, mais ele se preocupava com o medo de esquecer de pronunciar aquele "L" que fazia toda a diferença no meio do nome. No dia em que a chefe chegou aproximou-se dela todo nervoso e acabou por chamá-la de dona Bucleta.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Irmãos de armas

Os Estados Unidos são o melhor exemplo de como devem ser estruturadas e organizadas as lutas por direitos - e já era tempo de começarmos a aprender com eles. Em primeiro lugar, direito é algo muito abstrato, então toda luta tem que ter uma cara que simbolize a essência do que está sendo buscado - seja o rosto de Rosa Parks, de Harvey Milk, ou de Matthew Shepard. É o rosto daquele que ousou levantar contra o mais forte. A partir daí começa o engajamento de todos que apoiam a causa, que passam a bombardear o agressor por todas as formas possíveis e imagináveis, eventualmente conquistando o apoio da imprensa e de políticos influentes.

No Brasil temos a oportunidade de testar este modelo com o recente caso do médico Ricardo Tapajós (o da direita na foto) que teve negado o pedido de inclusão de seu marido Mario Warde, também médico, no quadro de associados do tradicional Club Athletico Paulistano. Seria só um caso de obediência às normas do regulamento interno do clube se não acontecesse de a organização aceitar a inclusão se o parceiro fosse do sexo feminino. Aí passa a ser um caso de preconceito mesmo. Como disse Ricardo, "concubina pode, meu marido não". O caso está ganhando repercussão, e eu espero que o Ricardo faça um barulho tremendo com isso. Existem todos os ingredientes para ganhar a simpatia da imprensa (luta por direitos civis contra clube elitista e preconceituoso).

Falta agora a presidência do clube ser bombardeada pela imprensa e pelos cidadãos de bem indignados com esta atitude. Para enviar um e-mail para o clube, basta clicar em Presidência do Club Athletico Paulistano. Eu acabo de enviar o meu e-mail expressando repúdio, e terminei minha mensagem com "Este episódio é uma mancha vergonhosa nos registros desta organização cuja história se confunde com a própria história da cidade". É bom lembrar que ninguém vai vir bater na sua porta para perguntar se você está precisando de alguma coisa em termos de direitos.

You look like an angel


Eu já falei aqui, há bem pouco tempo, como a morte de pessoas jovens me perturba. A interrupção prematura do ciclo da vida é um dos ingredientes mais fortes para a construção de um mito. E talvez James Dean seja a constatação mais evidente deste fato. Ele está chegando agora em um filme de título longo, Joshua Tree, 1951: A Portrait of James Dean, que promete uma visão mais puxada para a sexualidade do ator. O bom gosto do trailer acende a expectativa de um bom filme.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Carne fresca

Lembra a primeira vez que você, ainda um adolescente púbere, venceu a timidez e entrou em uma boate ou foi a uma sauna, e teve a sensação que todos estavam olhando para você e pensando "oba, carne fresca!!". É exatamente este o clima retratado neste ensaio com o Chris Coulfer (o Kurt, de Glee) especial para a revista Rolling Stone.

Declan O'Rourke

Há algum tempo atrás perguntaram ao cantor Paul Weller que música dos últimos 20 anos ele gostaria de ter escrito, e ele respondeu sem hesitar: "Galileo (Someone Like You)" do Declan O'Rourke. Hoje eu entendi muito bem porquê.

Porque hoje eu acordei com o peito apertado, com o coração pequeno, sentindo aquela melancolia que teima em vir ocupar o espaço de alguém que partiu. Este sentimento angustiante que a gente costuma resumir com a palavra 'saudade'.

Então, para você que está aí tão longe (e você sabe muito bem quem é), eu quero dizer que espero sua volta ansiosamente. Se eu pudesse, eu escolheria dormir e só acordar no dia do seu retorno.

E quero lhe dedicar estes versos da música que, assim como Paul Weller, eu também gostaria de ter escrito. Para você.

"...Who puts the rainbow in the sky?
Who lights the stars at night?
Who dreamt up someone so divine
Someone like you and made them mine?"




Declan O'Rourke - Galileo (Someone Like You) 




UPDATE: Quem gostou e quiser guardar para sempre, tem aqui.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O tal beijo gay

A ausência até agora de um beijo gay em alguma novela brasileira tem virado notícia mês sim outro também. E mesmo nos Estados Unidos onde beijos gays já são relativamente comuns em seriados e novelas, há um certo questionamento sobre porque os personagens héteros de uma série tão assumida quanto Modern Family se cumprimentam com um beijo na boca e os personagens gays não - e taí a cena do reencontro no aeroporto para comprovar a diferença de tratamentos.

Será que isso tem tanta importância assim? A resposta curta e grossa é: tem sim, e muita. Um aspecto da luta pela igualdade de direitos que tem evoluído muito pouco é a aceitação de demonstrações de afeto em público. Estas demonstrações têm, aliás, motivado reações violentas e expulsões de bares, restaurantes, e shoppings. Ainda é uma área que envolve grandes tabus. Grande parte dos supostos "liberais" da nossa sociedade têm uma posição de 'tudo bem ser gay, não tenho nada contra, CONTANTO que seja discreto', ou 'tudo bem ser gay contanto que ninguém perceba'. É a mais pura hipocrisia.

Eu não tenho coragem de beijar meu namorado em público - nem mesmo de lhe segurar as mãos. Eu poderia dizer que não sinto necessidade disto, mas a verdade é que estas demonstrações de afeto em público nos são tão estranhas que nós mesmos as repelimos. No sábado passado no aeroporto de Guarulhos enquanto esperava o embarque de alguns amigos, um casal hétero se agarrava tão ardentemente que cheguei a pensar que eles fossem começar a transar ali mesmo. Era um casal jovem, muito bonito, e aparentemente ninguém se sentiu ofendido ou chocado estando ao redor deles. Foi quando eu tive a certeza que eu gostaria de também poder beijar meu namorado em público sem causar constrangimentos. Por costume ou timidez talvez eu nunca o beijasse em público - mas eu gostaria de poder.

É assim também com outros aspectos da luta pela igualdade de direitos. A gente talvez nunca precise, mas é importante saber que pode.