terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Evolução

Uma das características mais extraordinárias do conhecimento é que ele é cumulativo. Nós não precisamos aprender de novo a fazer fogo nem precisamos inventar a roda a cada nova geração. Aproveitamos tudo que já criaram e descobriram antes de nós, aprendemos com os erros e os acertos, e somamos novos conhecimentos que adquirimos ao longo da vida. Este é o principal fator da evolução, das mudanças que todos atravessamos em direção a uma sociedade melhor.

Por isso é normal esperar que, no geral, a próxima geração saiba mais do que a geração presente, que sabia mais do que a geração passada. E que os filhos tenham melhores visões e perspectivas de que seus pais na busca por uma sociedade melhor e mais justa.

É um alento perceber isso nas grandes figuras públicas. George W. Bush foi o presidente americano com a visão mais míope de mundo que se tem notícia, com ideias conservadoras e retrógradas. No entanto, sua filha Barbara (quem se lembra das gêmeas na presidência?), hoje com 29 anos e vivendo em Nova York, tornou-se uma forte defensora da igualdade no casamento e até contribuiu com um filme para a campanha da aprovação da lei no estado de Nova York. "Todos devem ter o direito de se casar com a pessoa que amam".

Eu rezo todo dia para que esta geração retrógrada e ignorante morra logo.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Ricky Martin, ¿mas o más?

Vazou hoje o novo disco do Ricky Martin Música + Alma + Sexo que tem lançamento oficial previsto para amanhã, 1º de fevereiro. É o primeiro lançamento oficial depois que o cantor se assumiu gay, e vem na esteira do sucesso do primeiro single, o dueto lançado em novembro The Best Thing About Me Is You (Lo Mejor De Mi Vida Eres Tu, na versão em espanhol).

O disco é gostoso de ouvir e inclui desde a balada romântica até a faixa dançante - mas não chega a surprender em nenhum ponto. Basicamente, vai ser adorado pelos fãs e ignorado por quem torce o nariz para o cantor. Provavelmente vai capitalizar um pouco da publicidade provocada pela saída do armário, talvez atrair alguns novos fãs gays e afastar algumas mocinhas ingênuas que ainda tinham a esperança de se casar com o cantor algum dia.

Já escolhi minha música favorita: Cántame Tu Vida. Tem um ritmo gostoso de quase baião e fala de esperança. "Hay un niño sin llanto y sin risa, que anda suelto sin rumbo y sin fé. Lleva dentro una mala semilla que marcó su destino al nacer". Estaria ele falando de si mesmo?  "Caminando por la calle sin piedad, tropezando en la dura realidad..."

Interessante como as iniciais de Música + Alma + Sexo formam um grande MAS sobre a foto do cantor na capa. Seria um "más" para indicar que agora Ricky é mais, vem completo, sem esconder nada? Ou seria um "mas" (sem acento) para lembrar o 'porém' que o cantor carregou durante os 39 anos de sua vida até encontrar o momento certo de fazer as pazes com a sua consciência?

Seja o que for, eu fico feliz que ele esteja passando por este momento. Este homem lindo, talentoso e gay é um ótimo exemplo para as novas gerações, os adolescentes, e até mesmo os mais maduros, que podem se inspirar na sua coragem para lutarem pelo que acreditam.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Deixe-me entrar

Quando a gente achava que já haviam esgotado todos os tipos de tratamentos cinematográficos possíveis para as histórias de vampiros - desde as aventuras açucaradas e assépticas de Edward e Bella em Crepúsculo até a overdose de sangue, suor e sexo de True Blood - eis que chega Deixe-me Entrar (Let Me In, 2010). Baseado no filme sueco Deixe Ela Entrar de 2008, este é primeiramente e basicamente um filme sobre a solidão.

Owen é um garoto de 12 anos que mora com a mãe separada com quem pouco se relaciona. Franzino, frágil e tímido, é presa fácil para os garotos mais fortes da escola onde é vítima constante de bullying violento. Abby é uma garota linda da mesma idade, que acaba de mudar para o apartamento do lado, e vive igualmente só.  A solidão destas duas crianças é tão grande que chega a ser dolorida. A amizade que nasce entre os dois é verdadeira, ingênua, e desinteressada, como quase tudo na vida de garotos de 12 anos de idade.

Não demora muito para a gente perceber que Abby não é uma garotinha normal como parece. Em contraste com as cenas da amizade sincera dos dois garotos há a violência aterrorizante da luta pelo alimento natural das criaturas da noite: o sangue humano ainda quente que jorra da jugular da vítima indefesa.

O diretor Matt Reeves consegue construir a história de forma muito eficiente com poucos diálogos e um clima de suspense constante que chega a níveis sufocantes. É daqueles filmes em que a gente sai do cinema com a impressão que algo vai pular nas costas enquanto caminha para o carro no estacionamento escuro.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Desmancha-prazeres



Lembram quando contavam aquela piada que em Portugal o filme Psicose era chamado de O Filho Que Era Mãe? Isso nunca foi verdade, mas estragar o prazer do filme com o título já não é mais novidade. A equipe do site The Shnitz resolveu brincar com os cartazes de alguns filmes. 127 Horas virou Você Vai Ter Que Aguentar 85 Minutos Até Ele Cortar O Braço, por exemplo.

Mas os meus favoritos foram Lésbicas Também Têm Problemas (Minhas Mães e Meu Pai) e Acontece Que O Cara Que Inventou O Facebook É Um Grandecíssimo Babaca (A Rede Social).

A brincadeira completa pode ser vista aqui.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Quem come garralê morre!

Quando pequeno minha minha mãe sempre usava o infalível argumento "Quem come garralê morre!" para fazer a gente sossegar logo após as refeições. Só depois de grande é que fui entender que ela dizia "quem come e agarra a ler morre" para justificar que não devíamos ler ou fazer exercícios mentais pesados depois das refeições pelo risco de congestão. Talvez criada para justificar o costume da sesta, esta crendice popular é incutida nas cabeças das crianças desde cedo, quando ainda não temos massa de conhecimento suficiente para contestar.

Se quem come garralê morresse mesmo, já estaríamos todos mortos neste mundo moderno em que muita gente nem ao menos consegue parar de trabalhar para comer.

A verdade é que muito dos sentimentos de preconceito e homofobia que existem nas mentes dos homens foram incutidos nesta fase infantil em que a palavra dos adultos representa a verdade mais absoluta e inquestionável. Estes sentimentos são fortemente carimbados e sua remoção demanda tempo e paciência. As campanhas inteligentes contra a homofobia trabalham com o lento processo de desprogramação de mentes viciadas por falácias repetidas seguidamente e que acabam aceitas como verdade inquestionável, principalmente porque são reforçadas por dogmas religiosos atrasados.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Eu vejo assim
(ou Você não é tão gordo e velho quanto pensa)

Já foi cientificamente provado que cada pessoa vê o mundo de uma maneira. O que nós pensamos que é o mundo é, na verdade, a nossa interpretação do que estamos vendo, resultado de nossos interesses, conhecimentos, cultura, inclinações, etc. Por isso, diferentes pessoas vão olhar primeiro para partes diferentes do corpo do rapaz da foto, dependendo se a mente está focada em sexo, ou em beleza, ou em decifrar a inversão da posição, coisas assim... A percepção da visão é altamente seletiva.

Ao olhar no espelho é normal que nossos defeitos, ou o que não gostamos no rosto, pareçam muito maiores e mais evidentes do que qualquer outra pessoa vai perceber. Saber disso é um grande alívio, pois significa que ninguém vai nem notar aquela mecha de cabelo fora de lugar que gastamos mais de dez minutos tentando domar naquelas manhãs em que parece que a gente acordou muito antes do cabelo. Significa também que você certamente não é tão gordo ou tão velho quanto imagina.

Eu acho interessante quando esta "seletividade" da nossa percepção fica clara em algum acontecimento. Há cerca de um mês eu fui abordado por uma moça na academia que veio me perguntar toda cheia de charme se eu era casado. Respondi que sim e continuei fazendo o que estava fazendo. Agora o mais interessante é que eu não me lembro mais de absolutamente nenhum detalhe desta moça. Ela provavelmente continua lá malhando do meu lado, talvez me olhando, mas meu cérebro deletou a imagem completamente. Em compensação, eu consigo me lembrar de todos os pequenos detalhes dos rostos e músculos dos garotinhos malhados e bonitinhos que frequentam a academia no mesmo horário, embora nunca tenha trocado uma única palavra com eles.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A vida dos outros

Eu acho uma bolação incrível este formato do Big Brother de confinar um monte de gente em uma casa e deixar todo mundo olhando, mas não consigo assistir. Gosto da ideia, mas o resultado não é para mim. Eu simplesmente não consigo me interessar pela vida dos outros.

Sempre dou uma passada nas notícias para saber o que está acontecendo na casa, até me divirto com um ou outro detalhe picante, e adoro ler os textos do Tony na Folha. Mas minha atenção diária para o assunto não passa de 2 ou 3 minutos, e não consigo me importar nem um pouco com os destinos daqueles ratos de laboratório mostrados em rede nacional.

A quase comoção popular gerada pelo programa é algo que deveria ser estudado. Na edição em que o Jean Wyllys saiu vencedor minha tia de Minas até me ligou pedindo para votar na exclusão do Rogério, o doutor bonitinho e loiro que era "da turma do mal". Mas nesta nova edição conseguiram unir os desinsteressantes com os infantilizados e a mistura parece que não está dando liga por mais que se mexa e apure - continua faltando caldo.

Mas a minha opinião não significa nada. A vida dos outros não me desperta o interesse nem fora da TV. Sou síndico do meu condomínio e muita gente vem me contar um monte de coisas. A maioria das vezes eu as interrompo na metade porque não tenho paciência de ouvir até o final. Na TV é mais fácil: a gente muda de canal ou desliga o aparelho.

O Brasil é um lixo

Ninguém achava mesmo que o filme sobre o Lula tinha alguma chance de ser indicado para concorrer ao Oscar. Acho até que se alguma coisa acontecesse errado e o filme recebesse a indicação eu morreria de vergonha.

Mas um brasileiro muito ilustre vai estar presente na festa. Vik Muniz mora em Chicago há vários anos, mas é nascido em São Paulo e tem uma carreira extraordinária como artista plástico. Vik consegue obter efeitos visuais impressionantes com materiais incomuns como macarrão, chocolate, arames, açúcar, ou barbante. Seu trabalho mais conhecido no Brasil talvez seja a montagem feita para a abertura da recém terminada novela Passione.

O trabalho de Vik Muniz com catadores de um lixão inspirou o documentário "Lixo Extraordinário" (Waste Land) dirigido pela inglesa Lucy Walker em co-produção entre o Brasil e Reino Unido. O longa-metragem, totalmente rodado no Brasil, já ganhou vários prêmios internacionais e tem chances sérias de receber o Oscar de melhor documentário.

Há 7 anos atrás Vik Muniz fez uma apresentação nos seminários do TED, na California. Uma boa oportunidade para conhecer o homem por detrás da arte: