segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Os velhos também amam

Há algum tempo alguém que eu já nem me lembro mais me deixou um comentário dizendo que minhas críticas políticas tinham a profundidade de uma novela das seis. O comentário me deixou muito lisonjeado, e eu nem sei se a pessoa tinha noção do grande elogio que me estava fazendo.

Nestes tempos em que a novela das nove é indescritivelmente chata e fútil, e a novela das sete é morna e sem empolgação, é A Vida da Gente que tem surpreendido a cada dia. O texto de Lícia Manzo respeita a inteligência do espectador na abordagem principalmente dos diferentes vértices das complexas relações entre pais e filhos e entre os próprios pais. A história é recheada de situações críveis vivenciadas por personagens com uma forte dose de realidade, onde o vilão não é uma perua psicopata que mata a bel-prazer, mas a própria imprevisibilidade da vida que vive nos pregando peças todos os dias.

Outra grande sacada da novela é mostrar os personagens na terceira idade como pessoas normais e sexuadas. Os atores veteranos, entre eles Stênio Garcia e Nicette Bruno que são namorados na trama, falam de sexo, fazem sexo e gostam de sexo. Na cena abaixo, exibida esta semana, Laudelino (Stênio Garcia) está se recuperando de uma cirurgia para a retirada de um câncer de próstata e tem que vencer o constrangimento para se informar com o médico sobre o efeito da operação em sua atividade sexual. A situação é convincente e o texto é esclarecedor.

É uma pena que até o momento não tenha personagens gays em A Vida da Gente. Lícia Manzo teria a sensibilidade e habilidade para apresentar de forma eficiente casais gays normais que também falam, fazem e gostam de sexo.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Anna Nalick

O aguardado lançamento de Broken Doll and Odds & Ends em junho do ano passado veio comprovar que o sucesso de Anna Nalick com o primeiro disco, de 2005, não era sorte de principiante. Esta californiana de 27 anos veio para ficar.

Até hoje quando ouço Breathe (2AM) no carro eu ainda me distraio com a letra cheia de verdades que eu já disse ou pensei pelo menos uma vez na vida.

Yeah, we walk through the doors. So accusing, their eyes like they have any right at all to criticize. Hypocrites! You're here for the very same reason...
...
Guys, you can't jump the track, we're like cars on a cable, and life's like an hourglass glued to the table.
No one can find the rewind button, boys...
...
And I feel like I'm naked in front of the crowd. 'Cause these words are my diary screaming out loud. And I know that you'll use them however you want to...


Anna Nalick - Breathe (2AM):


O vídeo de Car Crash, primeira música de trabalho do álbum Broken Doll and Odds & Ends, é resultado de um concurso entre os fãs que escolheu o melhor vídeo caseiro para a música.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Bem aventurados os usuários do Crtl+C Ctrl+V pois deles é o reino dos céus

A Suécia acaba de reconhecer a Igreja do Kopimismo. O nome vem de Kopimi, palavra cunhada para soar como Copy Me, e a nova religião tem como base a crença que o compartilhamento da informação é uma virtude sagrada. O símbolo é o Ctrl+C Ctrl+V e um de seus fundamentos base é que todo seguidor deve compartilhar pelo menos um décimo de seus arquivos com o próximo. O Kopimismo é o contrário do Copyright, e pela religião todos têm o dever sagrado e inalienável de compartilhar músicas, arquivos digitais, fotos, filmes, e quaisquer outros materiais da Internet.

Parece loucura? Pois eu nunca tinha visto algo tão sensato. Se existem até religiões criadas para perseguir gays, para azucrinar adúlteros, e para atormentar adolescentes que se julgam pecadores, então por que não?


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O pinto dos outros


Pense bem. Você conseguiria reconhecer um homem pelo pinto? Esta é a brincadeira do programa Members Only da MTV proposta para o gato Michael Fassbender, que logo estreia Shame por aqui. Em Shame, Michael Fassbender interpreta um homem viciado em sexo - então nada mais apropriado. Nunca na história do cinema eu tinha visto um homem hétero falando dos pintos de outros homens com tanta naturalidade.

Mas, cá entre nós, os pintos do Harvey Keitel, do Viggo Mortensen, e do Dr. Manhattan até eu adivinharia. Mas não espalhem...


Jogando Betty Faria

De todos os presentinhos que eu me dei neste final de ano o mais surpreendente foi o AppleTV. Talvez o produto da Apple menos anunciado, menos conhecido, menos comentado, e menos compreendido. O AppleTV foi homologado para uso no Brasil há menos de um mês, e é nada mais que uma caixinha do tamanho de um maço de cigarros para se ligar a uma entrada da TV e transformar a TV em uma central de entretenimento.

O que o AppleTV faz é carregar todo o conteúdo (músicas, vídeos, podcasts, fotos) do iTunes para a rede wi-fi para ser visualizado na tela grande da TV. Dá para ouvir as playlists do iTunes com as informações da música na tela da TV (incluindo a capa do disco), dá para ver fotos armazenadas no computador (sem fios ou conexões), dá pra alugar ou comprar filmes em alta definição da loja iTunes para assistir direto na TV (quem tem conta na iTunes americana pode até ver filmes que não foram ainda lançados por aqui), além de ter uma interface super amigável para acesso super rápido ao YouTube, Vimeo, Netflix, e milhares de rádios ao redor do mundo. Mas o mais gostoso mesmo é jogar Betty Faria com azamigue.

É assim: o AppleTV espelha a imagem do iPad na tela da TV sem precisar de nenhuma conexão via cabo; tudo via wi-fi. Navegando-se na Internet as imagens vão direto para a TV para todos assistirem juntos. Daí é só entrar no facebook de um amigo do amigo do amigo, daqueles que têm a página cheia de fotos de descamisados que mais parece uma sucursal da The Week. E azamigue vão assistindo na tela da TV e votando: "eu faria", "eu não faria", "nem Betty Faria". Horas de diversão garantida. 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Dale a tu cuerpo alegría, Macarena

A única coisa que eu lamento no sucesso repentino de Ai, Se Eu Te Pego é que não sou eu a embolsar todos os direitos por trás da música. Não ligo para fama, mas não me importaria nem um pouco com uma enxurrada de dinheiro nestas alturas da vida. E Michel Teló merece cada centavo.

A música é rasa, fácil, horrível, grudenta, contagiosa - enfim, um sucesso! Muita gente tenta, muitos cantores investem pequenas fortunas e sofisticadas estratégias tentando sucesso no exterior, mas se o público não adota, então não vai mesmo. É questão de muita sorte, de momento. Não tem nada a ver com qualidade. É que nem Doritos - faz um mal danado, mas é sucesso porque todo mundo compra. Quem consome é quem escolhe.

Palmas para Michel Teló que está conseguindo ganhar dinheiro e fama no ramo que escolheu. O resto é inveja e mágoa de caboclo de quem gostaria de estar no lugar dele. Quem não se lembra da letra de We Hate It When Our Friends Become Sucessful do Morrissey?

E engana-se quem pensa que Ai, Se Eu Te Pego vai estar completamente esquecida daqui dez anos. A música tem potencial para renascer das cinzas a cada verão. Ai, Se Eu Te Pego é a nova Macarena.

Histórias cruzadas

Quando os telefones fixo e celular tocaram ontem exatamente no mesmo momento, e vi que minhas duas irmãs estavam tentando falar comigo ao mesmo tempo, já pressenti que alguma coisa grande havia acontecido. E foi falando com as duas ao mesmo tempo, um telefone em cada orelha, que eu recebi a notícia do falecimento de um tio muito próximo e muito presente em nossas vidas. Nos minutos que se seguiram experimentei um certo atordoamento até as ideias se clarearem, joguei algumas coisas essenciais dentro de uma mochila sem pensar muito, e menos de uma hora depois já estávamos na estrada rumo à minha cidade natal no sul de Minas. As mais de quatro horas de viagem foram suficientes para irmos processando a situação. Quando chegamos, tudo estava absolutamente calmo e sob controle. Minha família é toda muito prática e objetiva nestas situações.

Estas situações inesperadas sempre unem família e amigos, e eu revi parentes e colegas de infância que não encontrava há muitas décadas. Mas acho que o momento mais forte foi o reencontro com as babás que ajudaram minha mãe a cuidar de mim e meus irmãos quando éramos pequenos. A Pira, a Nâni, e a Luzia estavam lá (a Ana faleceu há cerca de dois anos). Três mulheres negras ainda muito fortes apesar da idade, de voz grave e rouca, com aquele mesmo abraço seguro de mãe que ainda estava muito vivo na minha memória apesar do tempo. Elas, surpresas de ver que o menino mirradinho virou um homão, e eu, meio atônito com a sensação de que ontem mesmo elas me davam comida na boca e me levantavam quando eu caia.

Na viagem de volta para São José dos Campos não me saía da cabeça o filme Histórias Cruzadas (The Help, 2011) que vi há duas semanas, sobre o preconceito e as humilhações a que foram submetidas as empregadas americanas negras que serviram as famílias brancas no início dos anos 60. O filme é lindo e tocante, e tem atuações magníficas. É extremamente dolorido, principalmente quando mostra as crianças brancas que inexplicavelmente se tornam adultos preconceituosos mesmo depois de terem sido criados com muito amor por babás negras que renunciavam a qualquer vida própria para servi-los. Impossível sair indiferente do filme.

E eu estou até agora pensando o quanto do que é mostrado no filme pode ter acontecido também por aqui. E minha vontade é correr de volta e envolver de novo em um abraço forte aquelas mulheres que cuidaram de mim. E ter a certeza que elas sabem do meu amor. E nos braços delas sentir de novo aquela sensação de que tudo vai ficar bem.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Start


Há muito que 1º de janeiro vem sendo o dia mais chato do ano. As poucas pessoas que se aventuram a sair de casa têm aquela cara amassada de quem não dormiu bem, e absolutamente nada abre por aqui - nem as onipresentes padarias! Ontem conseguimos pegar uma sessão de cinema à noite, em um shopping fechado que manteve apenas um portão e uma portinhola abertos especificamente para os frequentadores do cinema. O resto do shopping estava todo escuro, vazio, com faixas para impedir o trânsito de pedestres - uma visão típica de filme de terror. Em compensação, saí hoje da cama com energia e disposição inusitadas. Finalmente chegou ao fim a tortura das festas de final de ano e o ano novo parece se por em marcha.

Se eu tivesse tido que pegar um vôo ontem à tarde no maior aeroporto do país teria ficado muito puto. Como uma coisa destas pode acontecer? Eu estava com pena de meus amigos americanos que embarcaram de volta para casa no dia 31 e passaram o réveillon a bordo, mas agora vejo que eles tomaram a decisão mais acertada.

Enfim 2012 está aqui. Vamos tentar tirar o melhor dele.