domingo, 22 de março de 2015

Maricota


Quando eu percebi que a música era ao vivo já era tarde demais. A recepcionista já tinha laçado o nosso olhar com um sorriso aberto de orelha a orelha, e fazer meia-volta-volver e bater em retirada ficaria muito feio. Procuramos uma mesa o mais afastado possível do burburinho, e acabamos encontrando um canto prosaico que recebia a sombra de uma jabuticabeira carregada de frutos. Dali a cantante - que se esforçava para encarnar um cruzamento de Nara Leão com Joyce - não chegava a incomodar muito.

Mas bastou a comida ser servida para a proximidade com a Natureza passar do céu ao inferno. Todos os mosquitos da margem do Rio Paraíba resolveram que a nossa mesa era realmente o melhor local da região para se estar, a ponto de uma garçonete oferecer uma toalha extra para cobrir as travessas e os pratos da mesa para que conseguíssemos comer sem ficar estapeando a comida. Eu estava só esperando que alguma barata cascuda voasse no meu pescoço para mostrar àquele restaurante o que é um escândalo de proporções bíblicas (e eu, obviamente, passaria a próxima década sem nem passar em frente ao portão, de tanta vergonha).

A conexão de internet parecia movida à lenha. Até os garçons, que recolhem os pedidos por meio de modernos tablets, reclamaram que é difícil enviar o pedido eletronicamente para a cozinha. O nosso pedido, por exemplo, evaporou-se no éter eletrônico e o garçom precisou voltar à mesa e digitar tudo de novo. "Acontece sempre", disse ele, resignado.

Mas, tudo terminou relativamente bem. Ah, estava quase esquecendo de contar que a carne estava dura, e que a conta ficou caríssima. Até agora não entendi de onde vem a reputação deste lugar tão disputado que chega a ter filas na porta. @Maricota, na Freguesia da Escada.

Um comentário:

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

A modernidade por vezes implica transtornos desta natureza ... mas faz parte ... rs

Tenho ficado fascinado com suas fotos de Guararema ... ainda vou por lá conhecer ...

Beijão