sábado, 4 de fevereiro de 2012

Ratos e homens

O estado de desenvolvimento tecnológico e econômico dos Estados Unidos é admirável. Por isto eu sempre me espanto com a constatação cada vez mais evidente que os americanos são uma sociedade emocionalmente muito imatura. Apesar de todos os percalços, os brasileiros são um povo emocionalmente mais safo.

Esta imaturidade emocional dos americanos fica muito evidente na batalha atual pela aceitação dos direitos dos homossexuais. Para os americanos o centro da questão é a definição de uma série de aspectos legais de ordem civil. Embora a luta seja muito importante e devamos todos apoiá-la, para a maioria dos brasileiros representa muito mais uma questão de reconhecimento e aceitação.

Embora no Brasil exista muita homofobia e violência contra gays, um sentimento muito comum nas famílias mais esclarecidas é a aceitação tácita. Todos se portam educadamente, se respeitam, os laços afetivos são subentendidos, e ninguém fica perguntando nada. Este é o sentimento predominante na minha roda de amigos e no círculo em que convivo. Existe aceitação sem necessidade de ficar discutindo a relação em público na mesa de jantar.

Os americanos não se sentem muito à vontade com este tipo de acordo que aqui funciona tão bem. Eles sentem necessidade de colocar os pingos nos i's, colocar etiquetas em tudo, dar nomes aos bois. Por isto a batalha pelos direitos é tão intensa, e a reação dos inimigos muito mais violenta.

Com a proximidade da eleição para presidente, a questão dos direitos LGBT assumiu uma posição central nos debates por lá. E o nível emocional de alguns candidatos a candidato é tão baixo que a comunidade LGBT se sente tomada de um enorme sentimento de desesperança.

O amigo Red, que escreve o Oyaji Complex, me indicou este link para uma reportagem da Rolling Stone (em inglês) que me deixou passado. O artigo descreve a guerra cruel e desumana que a sociedade americana vem impingindo a seus adolescentes gays e que tem sido a causa da onda de suicídios que temos lido nos jornais. É revoltante ler sobre como a comunidade evangélica da região da ex-candidata a candidata Michele Bachmann trata seus próprios adolescentes. É muito triste. É muito cruel. E é muito contraditório ver este comportamento primitivo em uma sociedade tecnologicamente tão evoluída. O ser humano pode ser muito bizarro às vezes.

11 comentários:

Dino Costa disse...

Eu discordo. Acho que tem gente obtusa em todo lugar. Aqui nos EUA a vida deles é mais politizada, e qualquer espirro é motivo de plebiscito. Cargos que no Brasil são de carreira, aqui são posições eleitas. A direita se usa do tema da homossexualidade para atrair votos de evangélicos e conservadores em geral. Você não via muito disso no Brasil, mas com o aumento da fatia de evangélicos na população, você vai ver isso cada vez mais. Existe mais preconceito aqui em áreas mais rurais e com gente mais ignorante. Quanto menos escolaridade, mais grossas as pessoas são...no geral. Mas com um ambiente de classe média, de classes mais altas e urbanas, o preconceito se reduz, tal como no Brasil. A diferença é que no Brasil há mais pobres e mais gente com déficit de educação...

Soteropolitano disse...

Eu concordo com o Dino Costa. Mas acrescentaria que quando existe um vínculo afetivo forte, mesmo as famílias mais pobres e ignorantes, portanto mais suscetíveis a influências religiosas e/ou preconceituosas,toleram seus parentes gays.

cris disse...

essa coisa de ser aceito "sem a necessidade de ficar discutindo a relação" me sufoca profundamente.
De qq forma, sua argumentação está bem bacana.
Um abraço
Cris

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

concordo plenamente com vc q de alguma forma nossa sociedade está pulos acima da americana neste campo ...

este arrazoado q vc apresenta é perfeito principalmente neste contexto: "Embora no Brasil exista muita homofobia e violência contra gays, um sentimento muito comum nas famílias mais esclarecidas é a aceitação tácita. Todos se portam educadamente, se respeitam, os laços afetivos são subentendidos, e ninguém fica perguntando nada. Este é o sentimento predominante na minha roda de amigos e no círculo em que convivo. Existe aceitação sem necessidade de ficar discutindo a relação em público na mesa de jantar."

concordo tb com o Cris ... isto tb me sufoca e na medida do possível vou rompendo as amarras e me posicionando ... passo a passo ... um dia chegamos lá ...

bjão

Juliano disse...

Discordo total. Tudo isso que vc escreveu depende muito mais do círculo de amizade e profissional do que do país. Para nenhum dos meus amigos gays ou lésbicas brasileiros foi essa aceitacao tácita na família, incluindo famílias até entao tidas como "esclarecidas". Se vc nao teve problemas ao sair do armário, vc é um sortudo. Entre os amigos rola uma aceitacao mais fácil pq se nao rolar, está explícito que nao era amizade de verdade. É claro que nas famílias mais esclarecidas (leia-se família cujos integrantes tem educacao no mínimo de grau superior) talvez haja mais aceitacao. Pessoas mais inteligentes também sao menos propensas a ter preconceitos ou a ser violentas. Se os americanos dos Estados Unidos reividicam seus direitos civis, é pq sao pragmáticos. No Brasil tb há luta nesse lado. A diferenca entre os países está na parcela da populacao com educacao deficitária, que no Brasil é evidentemente maior que nos EUA. A cretinisse dos candidatos e políticos dos EUA também se encontra nos políticos brasileiros. Nem é preciso citar nomes. Assim, o desenvolvimento emocional está nas famílias com um nível melhor de educacao. Dessas há tanto no Brasil qt nos EUA. De qualquer forma, EUA nao deveria ser tomado como um exemplo de desenvolvimento tecnológico, muito menos economico. O que eu quero dizer, é que há países muito mais "exemplares" (Canadá, Suécia, etc). E o desenvolvimento tecnológico deve uma grande parte à iniciativa privada nos EUA, ou seja, geralmente partindo de algumas famílias bem "educadas". Mas tal como no Brasil, boa parte da populacao dos EUA é religiosa, alienada e menos esclarecida.

Margot disse...

Me chamou a atenção comentário do Setoropolitanono que diz respeito ao termo "tolerar". As pessoas,no nosso circulo familiar ou social, independente de serem gays ou não, não merecem simplesmente serem "toleradas",devem ser aceitas e respeitadas, independente de qualquer característica divergente da nossa. Toleramos, no meu ponto de vista, um colega de serviço chato, um amigo excêntrico etc. E concordo com o Luciano quando diz que deve "existir aceitação sem necessidade de ficar discutindo a relação em público". O que fazemos com a nossa vida, desde que não invadamos a alheia, é da nossa própria conta. Ab.

Aldo disse...

Eu queria tanto que minha vida fosse pelo menos um pouco parecida como a que você descreveu no 3o parágrafo!
Famílias esclarecidas, na minha família têm muita gente esclarecida, mas por obrigação, não existe uma necessidade de conhecimento, é só o básico. E o assunto homossexualidade não está no nosso dia-a-dia.

As vezes me pareço um peixe fora da água. Eu ainda acho que lá - nos Estados Unidos - é melhor.
Lá pelo menos eles querem colocar os pingos nos ís, e aqui que nem os ís eles querem escrever.

Até

Cara Comum disse...

Pois é. Minha família e meu círculo de amizade/colegas de trabalho não faz parte dessa fatia mais esclarecida da sociedade...

Lobo disse...

Me deu um aperto no peito danado ler essa matéria. Ainda mais porque já salvei duas pessoas de suicídio, e se você tiver a oportunidade de olhar nos olhos de alguém que tentou fazê-lo, e ver que aquela pessoa está tão vazia por dentro, tão sem chão, tão sem nada onde se agarrar, bate um certo arrependimento de ter deixado ela ficar.

Sou mais um que adoraria ter a minha volta pessoas dessa fatia esclarecida...

Beijos!

Rugbycha disse...

Também é proibido proibir empregadas domésticas nos elevadores sociais dos prédios, então tolera-se a presença indesejável delas. É assim que funciona nossa sociedade por baixo dos panos da hipocrisia. Se isso é maturidade...
Tolera-se, ou seja, não se interessa, não deseja nem perto, mas pode ir ficando aí, mas não me contagia com suas coisas, com sua vida, vamos brincar de fingir que somos civilizados.
E por favor...não me venha com bichice. The s8er the better. E, por último, não vamos debater relacionamento gay, nojinho.

Anônimo disse...

Discordo.Direitos são mais importantes.A homofobia americana pode "parecer" mais violenta, mas pelo menos não é velado como no Brasil.

Não vejo nada de maduro na conformidade dos brasileiros.