terça-feira, 25 de junho de 2013

Espanando o parafuso


Existe uma anedota que a gente costuma repetir no curso de engenharia quando alguém pergunta sobre o torque exato para apertar um parafuso. "Aperte até um quarto de volta antes dele se quebrar". A graça está em justamente não se poder saber quando o parafuso vai quebrar ou a rosca vai espanar - quando a gente ouve o estalo já é tarde.

O que está acontecendo com a revolta causada pela indignação dos brasileiros é fácil de se entender por aí. Os governantes e políticos acharam que poderiam continuar arroxando até o máximo. Agora que finalmente ouviram o barulho das ruas estão tentando amolecer, mas um parafuso espanado não tem conserto. É preciso voltar lá atrás e começar de novo, desta vez diferente.

Uma falta de visão que tenho visto nas matérias dos analistas políticos é quando dizem que não conseguem entender a mensagem das ruas porque as reivindicações são múltiplas e difusas. Estes analistas estão tentando entender o mundo de hoje pela mentalidade do caminhando-e-cantando-e-seguindo-a-canção que já ficou décadas lá atrás. Mas a geração de hoje usa um terço da concentração para participar da reunião de família enquanto outro terço da cabeça ouve a música no iPod e o outro terço tecla com os amigos pelo celular. A atenção da geração da Internet é fragmentada e constantemente compartilhada - ninguém aguenta ficar falando de um mesmo e único assunto por mais de uma hora. Esta moçada que está aí nas ruas está reclamando de tudo sim. Não querem consertar só o telhado e deixar as janelas quebradas. Querem reconstruir a casa toda. E não tem nada de errado nisso.

8 comentários:

Anônimo disse...

Condições externas favoráveis e incentivos do governo provocaram uma febre de consumo, cujo fim gera agora insatisfação. Por sua vez, a nova classe que ascendeu viu aumentado seu nível de expectativas. Mais do que comprar um produto com IPI reduzido, seus membros querem educação de qualidade, sistema de saúde viável e transporte que justifique a tarifa, pra falar só do básico...

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

Como sempre parabéns pela contextualização ...

Marcos Campos disse...

Boa sacada !!
Abrao !

AD disse...

As pautas reivindicatórias sempre existiram e vão continuar existindo. Com a descarga emocional coletiva do hoje, a consequência é/será uma maior visibilidade sobre todas as insatisfações sociais reinantes. Exigência de pauta específica é coisa de mídia que tenta desmerecer o movimento por eventual desorganização.

Dimas disse...

Muito bom o texto Luciano!
mais uma vez parabéns!
Posso compartilhar?

Abraços!

Oliveira Santos disse...

Já notaram que os deputados votam bem rápido quando estão sob pressão!!! Já votaram e arquivaram a PEC 37. O caminho é este passeatas e mais passeatas, cobrar tudo que temos direito, e pra ontem!!!! E pelo jeito vai ser assim direto, tomara!!!!

Anônimo disse...

Nem analistas políticos e muito menos os próprios políticos que não conseguiam nem abrir a boca. Alckmin e Haddad que o digam - o poste paulista, como se não bastasse, ainda teve a lâmpada retirada pelo partido -. E Cabral e Paes não foram diferentes. Já o poste de Brasilia, sem amigos, sem partido [de fato] e com um único liderado, correu para o criador e se agarrou firme no marqueteiro, pois é o marketing que lhe interessa. Se passou seis anos baixando imposto da gasolina - inclusive o CIDE, que era para investir em transporte público - e tirando IPI dos carros novos, de repente virou paladina da mobilidade das massas.
A proposta de uma constituinte específica para a reforma política foi digna de uma dondoca deslumbrada.

Anônimo disse...

É interessante que a PEC 37 não era reivindicação do MPL e saiu primeiro de tudo. O que virá atrás?