quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Não pergunte. Não conte.

Imagine que um cidadão negro comece a trabalhar para um chefe cego que não tolera trabalhadores negros. O cidadão negro recebe então a instrução de nunca deixar o chefe cego perceber que ele é negro, ou perderá o emprego. E o chefe cego concorda em nunca perguntar a qualquer de seus empregados sobre a cor de suas peles. Se descobrir de alguma outra forma que o empregado é negro ele o demitirá em seguida.

Surreal? Pois a política "Don't Ask Don't Tell" (DADT) empregada nas forças armadas americanas funciona mais ou menos assim para os gays. Estabeleceu-se que as forças armadas nunca vão questionar a sexualidade dos soldados ("don't ask") e que os soldados não devem revelar sua orientação sexual ("don't tell"). E enquanto o soldado conseguir esconder sua condição homossexual ele será aceito. Se for denunciado, ou se houver prova irrefutável que ele é gay, será exonerado sumariamente.

Esta é uma das formas de preconceito mais insidiosas que pode existir, pois institucionaliza a hipocrisia. É uma política pérfida baseada no "tudo bem ser gay contanto que ninguém fique sabendo". Obriga os soldados homossexuais a negarem sua própria natureza, e a viverem com o medo constante de serem descobertos ou denunciados. O sentimento de "orgulho" duramente trabalhado na história das conquistas dos gays americanos é substituído nas forças armadas pelo sentimento da "vergonha".

A lei que estabeleceu a política do "Don't Ask Don't Tell" tem sido combatida pelos ativistas de defesa dos direitos civis e é cada vez maior o movimento por sua revogação. O grupo Log Cabin Republicans, formado por gays republicanos, entrou com uma ação contra a lei em 2004. Esta ação foi finalmente julgada esta semana e a lei considerada inconstitucional por uma juíza federal. Mas ainda há várias ações e recursos tramitando e, na prática, nada mudou.

Desde que a lei foi criada em 1993 mais de 13.000 servidores foram exonerados das forças armadas americanas pelo simples fato de serem gays, incluindo militares condecorados e com comprovado histórico de heroismo em combate. Um dia a gente vai olhar para trás e custar a acreditar que uma lei assim tão vergonhosa realmente existiu.

5 comentários:

Paulo Braccini disse...

Vivemos a Idade Média II ... q o Renascimento II se apresente logo ...

bjux

;-)

ADRIANO disse...

Esse paralelo que você fez da política DADT e do chefe cego e racista foi PERFEITA, PARABÉNS ! Eu gostaria de usá-lo também, seja numa discussão escrita ou falada.

Eu sempre achei essa lei de uma hipocrisia GIGANTESCA, mas você conseguiu com esse paralelo fazer o "DESENHO" dessa estupidez. Mostrou de maneira pornográfica a imbecilidade de quem se norteia pelo preconceito.

Junior disse...

Tudo bem que todo mundo deve ter o direito de servir se quiser, mas eu sempre me pergunto os que essas gays querem no exército. Se é tão visível que lá eles se sentirão constrangidos por serem defendidos por homossexuais, porque essas gays continuam servindo? Amor pela pátria? Sério?

Pra mim, o nacionalismo dessas gays é tão podre quanto a hipocrisia dos heteros.

Gui Sant'Anna disse...

UAU!

Que sacada a sua! Achei muito interessante sua comparação: ela foi feita na medida certa, sem exageros (que sabemos que existem) mas sem a sutileza desnecessária a esse tipo de questão.

Parabéns!

;)

Le Voyeur disse...

hipocrisia!
o mal da humanidade?

abraços
voy