terça-feira, 21 de setembro de 2010

Eu gosto de sentir a minha língua roçar na língua dos outros

Ao chegar ontem à cantina self-service que eu costumo frequentar deparei-me com o seguinte aviso: "PEDIMOS DESCULPAS AOS BONS CLIENTES MAS DEVIDO AOS MAUS PAGADORES NÃO ESTAMOS ACEITANDO CHEQUES NEM CARTÕES". Força do hábito de trabalho eu vivo traduzindo mentalmente quase tudo que vejo pela frente. E me veio à cabeça o que um falante nativo do inglês provavelmente usaria neste caso: "CASH ONLY". E me dei conta, mais uma vez, de como o brasileiro é muitas vezes forçado, pelo idioma e pela cultura, a dar voltas vertiginosas para expressar algo que o falante do inglês diria de forma muito mais direta e assertiva, sem usar desta verborreia que embute desculpas e explicações dispensáveis resultantes de nossos traços culturais.

Não tenho nada contra o idioma português. Muito pelo contrário. Adoro línguas em geral, e me maravilho com cada aspecto cultural inerente a cada idioma. Nenhuma língua é melhor ou pior do que a outra, e todas devem ser apreciadas e entendidas com suas idiossincrasias próprias. Mas às vezes dou graças a deus por não ser um tradutor literário. Ah, como estes devem sofrer! Pelo menos na língua dos processos jurídicos, contratos internacionais e documentos legais parece que há um pouco mais de lógica.

Que a língua carrega um grande componente cultural todo mundo sempre soube. O que se estuda atualmente é a via contrária: como a língua afeta o comportamento daquele que se expressa por meio dela. E é este o tema de um artigo interessantíssimo publicado há duas semanas no New York Times: Does Your Language Shape How You Think?. E a resposta é um estrondoso "sim". Nós somos reflexo da língua que falamos. E isto talvez explique em parte este jeito meio enrodilhado e pouco assertivo que todos sabemos fazer parte da nossa cultura. Resumindo, nós brasileiros temos uma tendência a falar de forma rocambólica e rococóica e a agir de forma idem.

9 comentários:

Paulo Braccini disse...

muito interessante esta percepção ... fantástica mesmo ... parabéns ...

bjux

;-)

Cássio disse...

E o que você acha do singelo aviso no metrô de Paris:

"Il est interdit de se livrer à la mendicance."

É proibido se entregar à mendicância. É ou não é literário até o osso?

Le Voyeur disse...

kkkkkkkkkkkkkk
adorei a conclusao!!!

abraços
voy

Johnny disse...

A boa e velha discussão sobre determinismo linguístico!
Pra mim, não há dúvidas de que a língua afeta e influencia até certo ponto o nosso modo de ver o mundo. Contudo é preciso MUITO cuidado com esse assunto. Se não daqui a pouco tem neguinho dizendo por aí que uma língua é mais "inteligente" que a outra ou qq outra baboseira preconceituosa do tipo!
Abç!

[ joe ] disse...

Ótima reflexão, mais uma vez. Quantas voce fala, afinal?
Gostei da brincadeira no título, mostra que além de conhecimento linguístico e do poder cultural que uma idioma carrega, você também saca de marketing, e de como chamar a atenção da audiência. Porque, né, eu li o título, vi a foto e vim correndo.
Espertinho.
Adoro a leitura daqui, parabéns sempre.

[j]

Luciano disse...

@[joe]
O título safadjinho foi proposital. Quando estava escrevendo eu me lembrei da música Língua do Caetano que diz "gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões..." Roçar línguas é muito bom!
Abraço,
**

marta matui disse...

E nos desculpamos por tudo, mesmo que estejamos no nosso direito.

Cássio disse...

acho que tem menos a ver com a lingua e mais com o carater, é o famoso jeitinho brasileiro.

o Humberto disse...

Ai Luciano, muito bom seu texto...
Rapaz, um dos grandes prazeres de trabalhar com idiomas (ensino e tradução) é isso de ir se deliciando com os detalhes, as diferenças e as similaridades mais improváveis (bom, você sabe disso!).

Achei muito pontual isso que você falou sobre o aviso, eu teria traduzido com o mesmo "Cash Only" e pronto. A maneira como o aviso foi dado em português é bem coisa de brasileiro mesmo, de "desculpa aí, mas eu tenho que fazer isso".

Muito bom. Espero ter a chance de trocar mais ideias com você sobre a vida de tradutor, seria um prazer.

Grande abraço!