quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A maravilhosa fauna gay

Se os gays representassem uma classe dentro das divisões taxonômicas, esta classe seria certamente subdividida em várias ordens, famílias, gêneros e espécies. Não há como negar que a fauna gay é de uma diversidade exuberante.

Não existe nem uma certeza absoluta sobre quantos somos. Há um grupo grande, silencioso e invisível, representado por professores, médicos, juízes, homens do clero, políticos, presidentes de empresas - que levam uma vida respeitável de pais de família tradicionais e optam por exercitar a homossexualidade de forma clandestina em encontros furtivos. Ou não exercitam a própria homossexualidade, reprimindo seus desejos e seus instintos, e carregando seu segredo inconfessável para o túmulo.

Há um outro grupo de homens que conseguem harmonizar o exercício da homossexualidade com a vida, a sociedade, e o ambiente. Têm apoio da família e dos amigos, estão livres do conflito sexual, e vivem uma vida normal sem carregar o facho da sexualidade permanentemente aceso na testa.

E há aqueles que não conseguiriam esconder ou disfarçar a homossexualidade se quisessem. São óbvios, muito evidentes, e justamente por isso são quase um símbolo de tudo que é gay. Pela visibilidade, são muitas vezes rejeitados pelas próprias famílias, e se tornam também as maiores vítimas da intolerância e da violência urbana.

Considerando toda a fauna gay, o terceiro tipo representa a ponta do iceberg - a única parte realmente visível. E era somente neles que o João Pereira Coutinho provavelmente pensava quando escreveu aquele artigo infeliz. Como se as trincheiras de soldados homossexuais fossem uma eterna festa e os soldados não se ocupassem de nada mais que fazer viadagens e bichices o tempo todo.

A fauna gay é muito mais diversa do que pensam os não iniciados, e está precisando de mais visibilidade em todas as suas ordens, famílias, gêneros e espécies.

16 comentários:

Daniel disse...

Resumindo, ele achou que as forças armadas iam se tornar isto.

Luciano disse...

@Daniel:
Muito boa esta.
Me fez lembrar uma piada que fizeram durante a operação militar aí no Rio. Veio a marinha, o exército, a polícia - daí começaram a dizer que só faltava o índio para virarem o Village People.
O importante é não perder o humor.
Abraço,
**

tommie disse...

Posso estar enganado, mas um gay pintosérrimo com uma arma na mão é capaz de matar tanto quanto um machão hetero.

TONY GOES disse...

Tenho certeza que o Coutinho escreveu aquilo tudo porque é ignorante em termos gays. Provavelmente conhece muitos, circula num meio intelectual, mas não o suficiente para apagar o clichê da bicha escandalosa e fechativa em sua cabecinha de hétero.

Aliás, é impressionante como muitos héteros supostamente esclarecidos não se comovem com as agressões explícitas ou implícitas que nós gays sofremos desde que nascemos. Ou não as percebem, ou acham que somos menos do que realmente somos, e protanto desimportantes.

ADRIANO disse...

AS vezes eu acho que somos muito mais do que esses "lendários 10 por cento da população" que todo mundo fala.
Não é possível ser apenas isso, é muito barulho! É muita preocupação de moralista homofóbico.

Em qualquer expressão artística milenar ou não estamos presentes, sem mencionar as demais profissões. Na história, na mídia, no boteco, no banheiro; somos focos de discussão e atenção.

No meu "ACHISMO" somos mais que 30 por cento...Ou por estar imerso no mundo gay acabei distorcendo a realidade.

Pensa bem é muito barulho por pouco, e a resposta só virá quando o ser humano puder assumir SINCERAMENTE SUA SEXUALIDADE VERDADEIRA E NÃO A IDEALIZADA.

Paulo disse...

Concordo com seu post, o que realmente alcança visibilidade acaba sendo este terceiro grupo. Por isto a sociedade acha que ser homossexual é ser assim, digamos mais afetado.É o que aparece na tv, se destaca nas paradas, etc. Uns anos atrás me lembro de ter visto um programa de tv aonde a apresentadora entrevistava dois gays um demostrava mais e outro era totalmente, digamos "normal" nas atitudes e jeitos. Me recordo que a apresentadora ficou, digamos, abalada com este segundo, pois ele não demonstrava ser o gay esteriotipado. Ela dizia: "vejam ele sentado até fica com as pernas abertas como os héteros fazem, tem certeza que você é gay? E ele disse: "Sou sem nenhum problema".Guardei esta conversa..rsrs
Mas no primeiro grupo talvez o mais grande, o que acho triste é que muitos reduzem a sua homossexualidade ao simples e puro ato sexual, achando que homossexualidade se resume a contato sexual simplismente. Mas acho que muitos agem assim pela falta de visibilidade, de direitos, etc.
Não tenho blog mas gosto de vir visitar, ler e comentar quando posso. Parabéns pelos seus posts!!

Flávio Amaral disse...

"E há aqueles que não conseguiriam esconder ou disfarçar a homossexualidade." Esse foi o trecho do post que me deixou meio intrigado. Em sendo a homossexualidade o desejo sensual, erótico por pessoas do mesmo sexo, e podendo este desejo estar presente em pessoas dos mais diferentes matizes, o que significaria exatamente não conseguir (ou não querer?) disfarçar a homossexualidade? É não disfarçar o desejo? Dar em cima de outra pessoa do mesmo sexo à vista de todos? Trocar carícias, beijar? Pergunto isso porque em algumas frases me parece que a homossexualidade citada é isso, o desejo homoerótico. Mas mais adiante tenho a impressão de que a homossexualidade passa a significar a posse de trejeitos ou modos de se comportar que se espera encontrar apenas em pessoas de outro sexo. Me parece que essa distinção seja importante porque ela vai além da questão do homoerotismo e pertence bem mais às noções, em uma sociedade, do que seja masculino e do que seja feminino. Ou do que é próprio do homem e da mulher. Na Tailândia, por exemplo, talvez passe batido um garoto não gostar de futebol. No Japão, policiais são educados em fazer arranjos florais. O filme "Billy Elliot" trata bem desse assunto. A "feminilidade" que um homem não consiga disfarçar ou a "macheza" que uma mulher de algum modo manifeste têm mais a ver com as construções do que é masculino e feminino nuam sociedade do que com a exposição ou não da homossexualidades. Isso é tão verdadeiro que há estigmas de homens "delicados" serem chamados de "passivos" dentro do meio gay e os mais contidos serem percebidos como "ativos". Isso é simplesmente machismo - e não tem a ver especificamente com a questão homossexual, embora essa beba da mesma água. O homoerotismo pertence à esfera do desejo. A "pinta" ou o trejeito parecem ser mais atreladas aos modos como uma determinada comunidade identifica o que é "próprio do homem" e o que é 'próprio da mulher". Em todos os sentidos, a luta pelo fim do preconceito contra pessoas de orientação homoerótica está associada à luta contra o machismo como um todo - e contra uma sociedade que procura demarcar em cada gesto o que os homens devem fazer e aquilo que só pertence às mulheres.

Papai Urso do Interior disse...

Assumir-se num país em que Malafaias da vida podem espalhar 600 outdoors e não sentir o peso da lei na consciência e no bolso, onde apanhar em saguões de hotel e vias públicas é expediente de praxe inclusive estimulado por policiais que entre si dizem que a gente tem de apanhar mesmo 'pra largar mão de bichice', onde governos populistas incentivam a ignorância e com isso fomentam mais preconceito, enfim, assumir-se neste país é F.O.D.A.! Por muito tempo esse iceberg só exibirá sua ponta que pode ser renomeada para 'pinta' mesmo... Tempos difíceis, tempos muito, muito difíceis... Mas como diz o hino, we will survive...

Cara Comum disse...

Bom, que esta ponta do Iceberg seja a mais visível, concordo. Sobre a fauna riquíssima, concordo. Agora, mesmo que todos os gays fossem de dar pinta, delicadinhos e tudo mais, é muito preconceito achar que eles seriam soldados piores que heteros machões... Não é desculpa para os héteros ter preconceito porque não conhecem a realidade do universo gay. da mesma forma que é preconceito eu achar que todo argentino é arrogante e gosta de tango. Mesmo que uma pessoa seja uma "bicha louca", ela merece o mesmo respeito que todos deveriam receber pelo simples fato de que somos todos seres humanos.
Abração!

Luciano disse...

@Flávio:
Para mim, a sexualidade (independente de ser homo ou hetero) é tudo isto que você descreveu, incluindo fatores que variam geografica ou culturalmente (como gostar ou não de futebol).
Eu não acho que homossexualidade deva ser escondida ou disfarçada. O intuito da frase é dizer que há homossexuais que, SE QUISESSEM , não conseguiriam disfarçá-la porque certamente não conseguiriam camuflar todos estes fatores ou pelo menos alguns deles. Para outros, que talvez estejam em um outro ponto desta vasta escala de tons cinzas, pode ser mais fácil.
Abraço,
**

Flávio Amaral disse...

Obrigado por comentar o comentário, Luciano. :-)

Em nenhum momento pareceu que você achava que alguém precisasse esconder qualquer coisa. Se dei essa impressão, é porque eu não devo ter sabido me expressar direito. De qualquer modo, meu ponto de vista é que esses fatores culturais ou geográficos que expressam "feminilidade" ou "masculinidade" são exatamente isso, fatores culturais - e não devem ser confundidos com homossexualidade, que não é um fator cultural. A expressão de uma "masculinidade" ou de uma "feminilidade" é aprendida, é cultural - e seria interessante entender como isso se constrói. Sou nordestino e morei um tempo em São Paulo. Vinha de uma sociedade tão mais machista que ao passar um período no Sudeste achava, de início, que todo homem era meio gay. Depois que comecei a discernir que recursos culturais se usavam para se expressar essas nuanças.

Outro abraço.

Luciano disse...

@Flavio:
Seu comentário me lembrou da história do "I'm not gay; I'm just British". A fina educação britânica também já foi muitas vezes confundida com 'gayzice' (ou 'viadagem', para ser mais explícito). Talvez no Brasil antigo tenha sido o mesmo com os mocinhos da aristocracia que iam estudar em Paris - voltavam com jeito de 'mais gays' embora tivessem se tornado simplesmente 'menos ogros'.
Este tema é realmente muito interessante.
Grande abraço,
**

cronicas gulosas disse...

@Flavio
Seu raciocínio é quase perfeito, resvalando num único senão : reduzir a homossexualidade ao desejo sensual, homoerótico. Desta forma, reduziríamos a heterossexualidade sob o mesmo contexto - pessoas que desejam sexualmente o sexo oposto. O ser humano é mais complexo do que a soma de seus desejos.
Não escondo minha homossexualidade desde muito, o que não impede de algumas pessoas se espantarem quando a afirmo. Não, não faço a linha machão, e escorrego sometimes. Mas o padrão masculino (e não machista)sempre foi determinante para meu comportamento, muito embora expresso as vezes sob um viés mais delicado.
Mesmo assim, abs! Legal ler um argumento com pontos tão lúcidos quanto os seus.

Roberto Camargo disse...

Oi Luciano! Há um texto do Caio Fernando Abreu com uma abordagem muito bem humorada sobre o assunto, que foi publicado na extinta revista Sui Generis com o título de "A Lenda das Jaciras" e que é ótimo. Como vc citou em um dos comentários, é importante não perder o humor. Abração!

Luciano disse...

@Roberto,
Eu nao conhecia o texto do Caio Fernando Abreu. Dei uma googlada e encontrei reproduzido no blog do amigo Paulo Braccini; achei ótimo!! Quem quiser relembrar ou conhecer está aqui. Tanta Telma, Jacira, Irene e Irma por aí e a gente nem sabia...
Abraço!
**

[ joe ] disse...

otimo texto, muito exato!
bom te ler, e de quebra rir um pouco.
de fato, somos de muitos tipos. graças a deus, ne.

[j]