sábado, 4 de dezembro de 2010

Violência contra homossexuais

Sob o título Violência Contra Homossexuais o dr. Dráuzio Varella assina excelente artigo na Folha de S. Paulo de hoje. O dr. Dráuzio deixa claro, inclusive, que apoia o casamento entre homossexuais. Seguem alguns trechos para reflexão:

"A HOMOSSEXUALIDADE é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados."

"Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por mero capricho. Quer dizer, num belo dia, pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas, como sou sem-vergonha, prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.
Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros."

"Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países o fazem com o racismo."

"Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade."

"Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser nazistas a ponto de pretender impor sua vontade aos mais esclarecidos."

Para ler o artigo na íntegra, clique em "Mais informações" abaixo.

O artigo na íntegra:

DRAUZIO VARELLA

Violência contra homossexuais


Negar direitos a casais do mesmo sexo é imposição que vai contra princípios elementares de justiça



A HOMOSSEXUALIDADE é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare.
Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência a mulheres e a homens homossexuais. Apesar de tal constatação, esse comportamento ainda é chamado de antinatural.
Os que assim o julgam partem do princípio de que a natureza (leia-se Deus) criou os órgãos sexuais para a procriação; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou Ele).
Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras?
Se a homossexualidade fosse apenas uma perversão humana, não seria encontrada em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos.
Em alguma fase da vida de virtualmente todas as espécies de pássaros, ocorrem interações homossexuais que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em orgasmo e ejaculação.
Comportamento homossexual foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias, coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes, carneiros, macacos e até leões, os reis da selva.
A homossexualidade entre primatas não humanos está fartamente documentada na literatura científica. Já em 1914, Hamilton publicou no "Journal of Animal Behaviour" um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal entre os machos dessas espécies. Em 1917, Kempf relatou observações semelhantes.
Masturbação mútua e penetração anal estão no repertório sexual de todos os primatas já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos.
Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas.
Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por mero capricho. Quer dizer, num belo dia, pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas, como sou sem-vergonha, prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.
Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.
A sexualidade não admite opções, simplesmente se impõe. Podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira.
Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países o fazem com o racismo.
Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade.
Negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai contra os princípios mais elementares de justiça social.
Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser nazistas a ponto de pretender impor sua vontade aos mais esclarecidos.
Afinal, caro leitor, a menos que suas noites sejam atormentadas por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? Se o vizinho dorme com outro homem? Se, ao morrer, o apartamento dele será herdado por um sobrinho ou pelo companheiro com quem viveu por 30 anos?




13 comentários:

Paulo Braccini disse...

muito bom ... isto me leva a pensar q novos ventos começam a soprar ... quem sabe não é mesmo? todavia, o q precisamos mesmo é de maior consciência e maior engajamento de nós mesmos na luta pelo respeito e pela cidadania ...

bjux

;-)

TH disse...

A turma se esquece que conscientizar uma conduta pra mudá-la é mais importante do que criminalizá-la. A criminalização pode ter duplo efeito: pode tambem aumentar o repudio contra homossexuais...

Gui disse...

Não poderia ter escrito melhor.

Fantástico.

Anônimo disse...

"Porque não sou do tamanho da minha sombra, mas do tamanho daquilo que vejo". ( F.Pessoa )
Belo Post! Parabéns
Guilherme

wonderfulcauseiam disse...

Tem coisa mais ácida e flamejante do que:

"Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade."

pra jogar na cara dos enrustidos? Muitíssimo bem-dito, Sr. Dráuzio! Sou seu fã agora e te seguirei no twitter! ehauehaue.

TONY GOES disse...

O artigo está soberbo. Lúcido, bem argumentado, bem escrito. Quem discordar estará passando atestado de imbecil. Viva Dráuzio Varella!

Na mesma ediçnao da Folha, na seção de debates, há um artigo contra e outra a favor do PL-122. O contra está repleto de sandices. E pena que o a favor use e repita a expressnao "opção sexual". Nem nossos amigos sabem que não se trata de uma escolha (o Dráuzio sabe).

Ivan Dias disse...

Nos somos 10% da população, no mínimo.. Agora pergunto, porque nossa expressão é tão restrita? Vocês se manifestam no seu âmbito pessoal? Vocês se colocam? Eu tive muita sorte, creio eu... Sempre fui bem resolvido, tive experiências heterossexuais a titulo de pesquisa, nunca me enganei ou enganei alguma menina, sempre vivi as claras com minha familia e desde meu segundo cargo de chefia deixei claro minha sexualidade. Não sou afetado porque esse comportamento diverge de quem eu sou, simplesmente não sou assim, mas também não me me seguro, não me reprimo... Demonstro meu carinho em público e me sinto mais sortudo ainda por ter um namorado extremamente masculino e sem grilos. E esse texto todo foi para colocar um ponto. Eu sei que posso 'passar' por heterossexual com certa facilidade, mas sempre gostei de me colocar, acho que o respeito profissional que conquistei mesmo sendo de origem pobre, e tudo isso com muita clareza. Creio que se colocar, mostrar que sou 'normal', que sou como 'eles' é uma das maiores ferramentas que temos, é um jeito de fazer a nossa parte para contribuir para um futuro, sair de nossa zona de conforto... Ajudar a conscientizar...

Paulo Rideaki disse...

EXcelente matéria, sim a aversão humana pode ter um outro significado!
O medo e o próprio preconceito de assumi-la gera a tal violência contra o seu semelhante!
Vamos nos conscientizar de que vivemos no hemisfério ocidental do planeta, e gozamos da liberdade de expressão!
Expressar pensamentos e atitudes e principalmente de escolher a minha própria opção sexual!
Parabéns por esta postagem!

Caju disse...

Fantástico.

cronicas gulosas disse...

Excepcional texto, mais claro impossível. E inicia com o princípio legal de que negar direitos a casais do mesmo sexo vai contra os princípios básicos da justiça, visto que o conceito de isonomia está consagrado no artigo quinto da Constituição Federal - TODOS SÃO IGUAIS PERANTE A LEI, SEM DISTINÇÃO DE QUALQUER NATUREZA. Como fundamento, prega a lei que todos nascem e vivem com os mesmos direitos e obrigações perante o estado.

S.A.M disse...

Replicarei, fantático.

Obrigado por postar!

abração!

Anônimo disse...

EXCELENTE EL ARTICULO DE DRAUZIO VARELA, CLARO QUE EL RECHAZO DE LA HOMOSEXUALIDAD TIENE MOTIVOS MAS ALLA DE EL BUEN SENTIDO. EL CONTROL POR LAS DIVERSAS RELIGIONES IMPUESTO A LA SOCIEDAD, SE VE OBSTRUIDO POR EL COMPORTAMIENTO HOMOSEXUAL. RAZONES POLITICAS E ECONOMICAS, EN FIN.
BRAVO DRAUZIO

Diogo Didier disse...

PERFEITO!