quarta-feira, 20 de abril de 2011

Parem todos os relógios

A voz da minha amiga Zita ao telefone estava calma e controlada. "Chegou a hora. A Dag se foi." Estávamos todos esperando este momento nas últimas semanas mesmo sem querer que ele chegasse, apesar de inevitável.

Quando o câncer foi detectado há cerca de 4 anos atrás ela achava que deus não permitiria que isto acontecesse com ela. Eu, ao contrário, tive a última confirmação que deus realmente nunca existiu.

Acho que nunca vou conhecer outra pessoa tão engraçada e tão cheia de vida como a Dagmar. Tudo que ela contava ficava engraçado. Quando a gente se reunia, o auge do programa era sempre ouvir as "histórias da Dagmar". Os foras na viagem ao Egito. O jeito que ela se vingou da landlady chatérrima em Londres. As rodas de samba que ela passou a frequentar depois que se apaixonou perdidamente por um negão segurança de banco em São Paulo. As transas descritas em detalhes engraçadíssimos que ela contava sem nenhuma reserva, inclusive para o irmão e para a mãe, que também riam muito. Acho que eles sempre foram assim, nunca esconderam nada um do outro. Ela e o Zé eram tão amigos que nem pareciam irmãos.

Uma vez ela nos chamou para almoçar na casa dela. D. Bernadete fez um puchero divino com o qual eu ainda sonho hoje. A tarde foi tão divertida que eu voltei para casa com cãibra na boca de tanto rir.

Outra vez a Dag estava descrevendo uma transa fantástica com alguém que ela tinha conhecido em uma festa e a D. Bernadete fez uma cara meio apreensiva. "Dagmar, você não acha que você está ficando uma mulher muito fácil?" Ela respondeu rápido. As respostas dela eram sempre rápidas. "Mas, mãe, eu tenho 50 anos e não estou mais na idade de ficar fazendo cu-doce!"

A Dag acompanhou minhas paixões, minhas separações, minhas alegrias e minhas tristezas. A foto lá em cima foi tirada há três eternidades atrás. Eu olho e parece que foi ontem.

Uma da madrugada agora. Estou pegando o carro e saindo para São Paulo para estar perto dela pela última vez. A morte não combina com a Dagmar. Da última vez nós almoçamos no Ráscal e ela estava radiante e cheia de vida apesar do abatimento pela quimioterapia. A Dag fez muita diferença na minha vida.

19 comentários:

Lucas T. disse...

Essa doença maldita está no DNA de toda minha família de tal maneira que hoje só sobraram eu, mãe, avó e uma prima.

Meus sentimentos, Luciano, de coração.

Alexandre Chuchuan disse...

Fiquei chateado com essa Dag fosse minha amiga e me conhecesse, sei o quanto dói perder amigos q sempre estão ao nossa lado, em separações, alegrias e paixões..
q ela descanse em paz e pessoas como essa sua amiga, acredito eu virão pontos de luz em algum lugar levando amor e alegria pra quem precisa e tem fé...
Sinto muito Luciano, um abço a vc e a toda familia da Dagmar...

Alexandre Chuchuan disse...

Corrigindo porque estava emocionado...

Fiquei chateado como se essa Dag fosse minha amiga e me conhecesse, sei o quanto dói perder amigos q sempre estão ao nossa lado, em separações, alegrias e paixões..
Que ela descanse em paz e pessoas como essa sua amiga, acredito eu, se transformarão em pontos de luz em algum lugar, levando amor e alegria pra quem precisa e tem fé...
Sinto muito Luciano, um abço a vc e a toda familia da Dagmar...

Thiago Lasco (Introspective) disse...

Puxa vida, meus mais sinceros sentimentos. Também sou freguês, pois o câncer sempre espreita o meu clã. Fico feliz que vc tenha aproveitado tanto a companhia da Dag e hoje tenha tantas lembranças boas para se apoiar. É isso que fica mesmo: a intensidade do que foi vivido. Não sei se vc tem algum tipo de crença, mas para mim a morte é uma transição... e a Dag vai continuar torcendo e olhando e vibrando com as vidas de todos vocês. Um beijo carinhoso.

Papai Urso do Interior disse...

Ela devia ser muito amada por todos, gente feliz irradia coisa boa e jamais é esquecida, agora é ficar com o bom de tê-la tido na sua vida. Tb já estou acostumado porém jamais conformado com a falta de gente especial que a Senhora da Foice tem vindo buscar ultimamente. Meus pêsames.

Anônimo disse...

Luciano,

meus mais sinceros sentimentos. Também sou freguês, pois o câncer sempre espreita o meu clã.(2).E quando perdermos alguem tao querido eque sabemos o quanto essa doença miseravel e forte, eu perdi uma irma que era muito querida por mim e por todos,força amigo.
Herbert_ITZ.

Wagner Koch disse...

Fique bem... Força querido...

CIELLO disse...

ela estará sempre por perto... um abraço apertado e minhas condolências sinceras. Não há o que escrever. Agora existe mais uma estrela lá no céu a brilhar por todos nós e em especial para Ti!

Paulo Braccini disse...

Nada a dizer a não ser que FIQUE BEM! É o que ela deseja para vc agora ...

R. Paschoal disse...

Conheci o blog só agora, mas tomo a liberdade de comentar...

A alegria de Dagmar permanece imutável em sua memória, a naqueles tantos que a tinham como querida.

Um grande abraço, rapaz.

Pinheiroamore disse...

Senti sua tristeza e alegria através de um arrepio...que bom que existem amigos como vc e como a Dagmar, cúmplices desta vida...
Ela sempre estará viva, em cada lembrança em cada sorriso ,até mesmo em cada lágrima derramada.

Fique na Luz e Seja Luz
Abraços

ADRIANO disse...

Quando eu perco alguém que gosto, eu vivo todo esse luto sem reservas...

Sinto toda a dor que tiver pra sentir,
Choro sempre que tiver vontade,
até ficar aliviado...

Então espero o TEMPO passar e deixar a saudade num nível suportável.

LUCIANO,
Meus sentimentos a você.

TONY GOES disse...

Perdi uma amiga ano passado, não tão próxima quanto você da Dag, mas alguém que eu conhecia desde pequeno. Já era mais do que eesperado (foi um câncer de anos), mas não me conformo até agora. A dor diminui, mas não passa completamente. Coragem.

Anônimo disse...

triste!!!!!

Paulo disse...

A vida é assim. O que fica são as boas lembranças mentais que tu guardarás dela. Gente bem humorada fazem falta quando partem!! Que ela seja uma doce e grata lembrança de alguém que passou na sua vida!!
Ouvindo seu relato, ela foi uma pessoa que viveu, soube aproveitar e se entregar aos seus sentimentos e curtiu até que pôde e com humor esta grande aventura que é viver/morrer, o mais importante. Um afetuoso abraço solidário!!

cronicas gulosas disse...

Coragem é só o que posso desejar. Como alguns postaram aqui, também tenho um histórico complicado neste assunto, pais e todos avós morreram de câncer, e eu já tive um probleminha bem próximo disto. É por esta e por outras que não acredito no conceito de justiça divina. abs & força

[ joe ] disse...

Espero que ela, voce e seus amigos encontrem paz.
Tambem tenho uma amiga querida em situação parecida, e sei que é barra.

Enquanto a gente segue não entendendo muito as coisas da vida, desejo conforto ao seu coração, de alguma forma.

[j]

D.a.v.i.d disse...

Sinto muito...

Cara Comum disse...

Meus sinceros sentimentos... Eu bem sei o que é perder grandes amigos... Minha vida tem muito destas coisas...

No início dói, e muito! Mas depois vai ficando só uma saudade gostosa, um carinho terno e uma sensação de que valeu a pena ter vivido aqueles momentos ao lado de uma pessoa tão especial...

Nas primeiras vezes em que fui drasticamente separado dos meus amigos, pensei que Deus não existia. Mas depois me dei conta que foram pessoas tão importantes e tão mágicas e que os momentos foram tão sublimes que só poderia ser um presente divino o tempo que pude passar ao lado dessas joias da minha vida...

Se eu tivesse que escolher entre viver apenas parte do tempo que vivi com cada um deles ou nunca ter vivido, eu escolheria viver o tempo, por mínimo que fosse.

E só o fato de cada um deles ter cruzado minha vida faz eu ter certeza que ganhei os meus presentes divinos...

Não é com intenção de te fazer mudar de opinião, não. É só o desabafo de quem se identifica com sua dor.

Força, meu amigo! Afinal, ainda tem muita gente que te ama que ficou por aqui...

Abraços!