sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Orgulho

Nunca me ensinaram a ser assertivo na infância ou adolescência. Muito pelo contrário. Em Minas - onde nasci e cresci - é considerado rude ser muito direto ou falar o que se pensa. Os assuntos delicados são tratados com excessivo tato e muito rodeio.  Meu primeiro choque com uma sociedade assertiva foi nos Estados Unidos, uma cultura que prega desde o berço a se dizer com firmeza o que se pensa.

No final de um jantar delicioso a anfritriã americana trouxe um pudim lindíssimo que me encheu a boca de saliva só de olhar. Quando ela me ofereceu eu recusei, é claro. Porque em Minas é falta de educação aceitar algo assim logo de cara - dá a entender que a gente está morto de fome. O costume em Minas é recusar, porque a anfitriã sempre vai insistir duas ou três vezes - e na terceira o convidado aceita com aquela cara de já-que-você-insiste-então-eu-vou-provar-um-pedacinho. Fazer um pouco de cu-doce faz parte da boa educação mineira.

Pois a anfitriã americana me ofereceu um pedaço do pudim e eu recusei por educação. Ela virou e guardou o pudim na cozinha e no resto da noite não se falou mais nisso. E eu voltei para casa e ainda penso naquele pudim até hoje. Porque na lógica deles se eu quisesse o pudim eu deveria ter dito. Americano não consegue processar o ato de fazer cu-doce. Um americano é capaz de olhar para você e dizer que não gostou da sua camisa, assim, sem mais nem menos, sem você perguntar nada. E para eles isso não é rude. Porque eles aprendem desde cedo a dizer claramente o que estão sentindo doa a quem doer.

Por isso para os americanos gays é tão difícil viver no armário. Por isso existem lá garotos de 14, 15 ou 16 anos, completamente assumidos e resolvidos. Por isso existem também outros garotos mais tímidos que se matam por não terem estrutura para suportar sozinhos um segredo tão grande numa sociedade onde deveriam ser tão diretos. Por isso os americanos em geral têm orgulho de ser como são e baseiam a campanha da igualdade na palavra PRIDE.

Eu sempre fui tímido, quieto e reservado. E muitas vezes me perguntei: "por que eu?". E já desejei ser diferente. Mas hoje eu não mudaria absolutamente nada em mim. Levei muito tempo para descobrir que se tivesse a oportunidade de nascer de novo eu queria ser exatamente do mesmo jeito. Porque eu também aprendi a gostar de mim e a sentir orgulho de ser como eu sou.

11 comentários:

David ®... disse...

acabei de descobrir um lado meu que é americano, ou estadunidense..rsrsrs.

mas não costumo ser rude...procuro falar sempre com delicadeza mas falo.

bjão e bom final de semana

Paulo Braccini disse...

Sim ... direto e reto ... tb sou assim, embora sem perder um pouco de minha cultura mineira ... apenas procuro dosar nos termos utilizados ...

Qto ao PRIDE ... tenho muito sim ... graças a Deus ...

bjux

;-)

AliKerouak disse...

Também sou mineiro e acho que a linha entre a sinceridade e a falta de educação é muito tênue.

E aqui na Espanha ela é cruzada o tempo todo, são muito grossos por natureza, imagina então o que já sofri aqui! heheehehe..

Introspective disse...

O seu último parágrafo foi matador! Hoje, finalmente me sinto capaz de dizer o mesmo. Mas se eu pudesse, anteciparia alguns aprendizados que tive para quem sabe ter sofrido um pouco menos.

Agora, quanto a vc ter recusado o pudim, isso foi puro vacilo seu! Imperdoável, ainda mais sendo pudim! Quer fazer cu-doce? Então diz: "ah, então eu vou aceitar só uma provinha, tá... mas me dá!". Pronto, ela já vai saber que vc não é morto de fome!

Aí quando vc for comer, vc começa a ter um orgasmo extravagante, enche a bola dela com isso, e ganha o salvoconduto para repetir a dose ;)

Papai Urso do Interior disse...

No Brasil não há orgulho por boas e legítimas causas, só por bobagens: o melhor futebol, o samba, o carnaval, as mulheres propagandeadas ao exterior como 'boas de cama', e por aí vai... tudo isso seria maravilhoso se, além dessas amenidades todas, tivéssemos pelo menos um terço do que está assegurado na Constituição sendo realmente cumprido na prática. Se houvesse respeito, igualdade de direitos e liberdade como está previsto não existiria homofobia, nem racismo, nem agressão à mulheres. É fato. Nos EUA, como vc disse eles crescem pressionados de forma positiva a ser quem são e sustentar suas opiniões e estilo de vida sem olhar para trás ou sentirem-se inadequados... Sua mineirice é um charme, faz parte d'ocê, e esses trem a gente num muda não, deixa assim mêsss, tá? A propósito, a foto ali em cima sem aqueles sunglasses ficou tudo de bom.

Eu: Alemberg Santana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Eu: Alemberg Santana disse...

Assertividade é o que falta na militância gay do Brasil, a ABLGT - Associação Barsileira de Lésbicas, Gays, Travestis e Transgêneros, por exemplo, preferiu nos dividir em letrinhas do que trabalhar o orgulho de ser GAY, no melhor estilo do movimento negro americano: BLAC IS BEAUTIFUL (O NEGRO É LINDO).

Ter criado mais um eufemismo, não ajudou diminuir o preconceito, as pessoas nem saber o que significa cada uma das letras, agora chamar alguém de gay todo mundo sabe que é uma grande ofensa e não deveria. Deveria ser um elogio, já que ser gay é estar na moda, ser bem informado, ter bom gosto musical, falar abertamente dos sentimentos, preferir dialogar do que brigar...

SER GAY É UM LUXO!

Quando alguém ouvir: SEU GAY!, sinta-se feliz, ser gay é um luxo.

Le1dro disse...

Caralho, eu super me identifiquei com seu post

marta matui disse...

Eu nunca entendi o cú-doce. Deve ser porque meu pai é japonês e sempre falou as coisas na lata. Se alguém me falar que não quer pudim não se fala mais nisso, rs.

Anônimo disse...

Aproveito neste post pra dizer o tanto que gosto do seu blog vejo todos os dias, bem como bom mineiro tb cresci me calando e fazendo coisas que nao me agradavam pois nao tinha a coragem de ser sincero e dizer o nao,e quando dizia me desdobrava em explicacoes pra nao ser rude ou magoar hj vivendo em ny aprendi que o nao e nao e nao precisa de explicacao, bjao pra vc brownyc

João Pedro disse...

Eu faço cu-doce. Fui criado assim como você. Moro no sudoeste da Bahia, e acho que é hábito aqui também. Recusar a primeira oferta, dosar as palavras, mentir para não desagradar... coisas que para a maioria de vocês que comentaram (senão todos) é um absurdo. Nunca questionei este lado da minha cultura e nem sequer associei ao fato de estar mais propenso ou não a sair mais cedo do armário - por exemplo. Acho que, no fim das contas, reduziram a questão a um pontinho minúsculo e ir(relevante).