segunda-feira, 4 de junho de 2012

O André

Conhecemos várias pessoas no curso de uma vida. A grande maioria são pessoas boas, gente do bem. Uma minoria que dá para contar nos dedos de uma mão são pessoas excepcionais. O André era uma pessoa excepcional.

Eu o conheci há cerca de vinte anos. Ele era dez anos mais velho que eu, magro, algo, precocemente grisalho, bonito. O que saltava aos olhos de qualquer pessoa que o encontrasse pela primeira vez era sua simpatia e educação e sua voz grave falando sempre devagar - ele nunca parecia ter pressa. Eu só conheci a família dele muito tempo depois. Ele tinha três filhos lindos.

O André era dono de uma empresa com cerca de 60 funcionários e gostava do trabalho. Era engenheiro aeronáutico por formação e, preocupado com o desequilíbrio que o aprofundamento técnico pudesse provocar no seu lado humano, foi estudar psicologia e psicanálise. Depois de formado nesta segunda especialidade abriu um consultório e começou a atender pacientes das 6 às 8 da manhã, antes de ir administrar a empresa de engenharia. Cobrava dos pacientes por sessão apenas o preço de uma passagem de ônibus.

Às vezes o André me ligava só para comentar uma foto minha que ele tinha visto no meu blog de fotografias. Ou para falar sobre uma expressão nova que ele tinha descoberto lendo um livro. Ele esteve na minha casa algumas vezes, a gente sempre tomava café e ele nunca saia antes de sentar um pouco na sacada e ficar admirando a vista. Uma vez ele me disse que minha serenidade o contagiava. O André era o cara mais humano que eu conheci em toda a minha vida, e eu o admirava enormemente.

A paixão do André, depois da família, era voar. Ele pilotava há mais de trinta anos, por puro prazer. Ele me disse uma vez que lá em cima, no meio das nuvens, os problemas daqui de baixo ficavam pequenos, e que depois era mais fácil resolvê-los. Há dois dias, no sábado de manhã, o André saiu voando e nunca mais voltou.

8 comentários:

Lucas T. disse...

Meus pesames, Luciano.

Margot disse...

sinto pelo seu amigo Luciano, mas não posso deixar de comentar que, a serenidade que ele (e eu), via em você, ele terá agora em céus mais azuis.. bem como ele amava. Ele deve estar feliz.
Abraços
(citei seu blog na postagem de hoje).

Anônimo disse...

Meus pesames, Luciano
Herbert

Dinhö disse...

Um dia, tu ainda me mata lindamente com um desses seus posts que me exigem um comentário qualquer só pra marcar minha leitura...e eu quero ver se recebo um texto de RIP desses.

...pensa que agora ele voa sem máquinha alguma, ele tem asas!

Rafael disse...

Esses amigos que nos deixam cá, e vão lá tornar o céu mais brilhante. Que sua luz continue a nos inspirar a sermos seres humanos melhores, e chegarmos mais longe.

Anônimo disse...

Nossa lamentável, como eu gostaria de conhcer uma pessoa assim feito o seu amigo André, uma pessoa excepcional e muito equilibrada, para poder desabafar falar, pedir conselhos, nossa estou desesperadamente precisando de uma pessoa assim para bater um longo papo.

Roberto Camargo disse...

Belíssimo texto. Emocionante. Parabéns, Luciano!

railer disse...

meus sentimentos, luciano.