domingo, 3 de junho de 2012

O gaydar em tempos de Grindr

Eu nunca vi aquele cara antes, nunca falei com ele, mal olhei para ele agora, e no entanto sei que ele é gay. Há menos de uma semana estava pensando nisto, sobre como o gaydar se desenvolve com o tempo até atingir níveis de precisão altíssimos. E por mais que algumas pessoas possam parecer gays óbvios, eles não o são para olhares destreinados. Se minha mãe fosse uma noite à The Week ela talvez não conseguisse apontar um único gay.

Estas divagações me fazem lembrar da infância em cidade pequena do interior, quando a gente vê uma ninhada de pintinhos andando no quintal com a mãe galinha - todos absolutamente iguais - mas não demora para perceber que a galinha consegue identificar cada um. Ela sabe quem está alimentado e quem ainda não comeu, e o mais raquitinho sempre recebe mais atenção da mãe. Se duas ninhadas se encontram e todos os pintinhos se misturam, no momento em que se separam todos sabem que galinha seguir - e as galinhas sabem exatamente quem são seus pintinhos e quem são os outros. A resposta é simples: é o instinto, é da natureza.

A revista de domingo do New York Times traz hoje um artigo muito interessante sobre isto: The Science of 'Gaydar'. Segundo o artigo, o gaydar realmente existe e é exato, e seu funcionamento está intimamente ligado ao reconhecimento de algumas características do rosto. E eu fico imaginando o efeito que as novas tecnologias terão sobre o gaydar no futuro. Muita gente hoje já tem dificuldade de escrever com letra cursiva porque só está habituada a digitar. Será que no futuro o uso exacerbado do Grindr vai prejudicar o desenvolvimento do gaydar?

10 comentários:

Margot disse...

Bom dia Luciano,
Li a reportagem do NYT, e entendi razoavelmente (rsrr), mas me esclareça por favor: o gaydar é exclusivo para homos ou heteros também podem o desenvolver? Pergunto isso, porque eu tenho uma certa facilidade pra isso. Já a notei ha vários anos e sou observadora de expressões e gestos. É claro, o meu não chega nem perto de quem tem o convívio com a comunidade gay, o que deve facilitar bastante. Mas me bateu essa dúvida. Pelo que entendi no texto, qualquer pessoa pode desenvolvê-lo com maior ou menor exatidão. É isso?
Bom domingo e até amanhã.

Diego Rebouças disse...

Adorei seu texto e a pesquisa relatada no NYT, embora polêmica, dá o que pensar. Interessante pensar nas relações entre gaydar e homofobia.

railer disse...

muito bom seu texto e o texto do artigo. também espero que a tecnologia não deixe isso se perder.

Aldo disse...

Luciano. oi?

Esse negócio de gaydar é muito estranho, pois comigo ele não funciona. Ou a minha auto-estima é muito baixa, ou eu sou um gay burro ou egoísta, porque na rua e na família, pra mim todos os homens são héteros e todas as mulheres, bem, são mulheres. Só os ''efeminados'' que dá pra perceber, mas mesmo assim é raro e sempre rola uma dúvida.

Acho que o meu gaydar tá sempre quebrado. Sou o único gay da minha cidade. Buá buá buá.!

Eu vou ler a reportagem. Até.

Anônimo disse...

Essa linha de raciocínio é a mesma que acha que o remédio que previne o hiv vai fazer as pessoas ficarem mais "promíscuas".

Anônimo disse...

Luciano, se eu tinha alguma dúvida se o Gaydar realmente funcionava nessa semana eu tive a prova. É fato. Gaydar realmente existe. E o meu é certeiro. Identifico gays até via televisão.
Semana passada estreou um programa novo no canal Discovery Home & Health 'Segredos de uma Chef' apresentado pela chef Anne Burrell. Foi incrível, assim que comecei a assistir percebi que havia algo de peculiar na apresentadora, nada muito explícito, mas algo muito sutil na sua desenvoltura que me chamou a atenção. Não sei explicar o que exatamente, mas imediatamente eu disse para mim mesmo "essa mulher é gay". Pronto, bastou um Google Anne Burrell e eu tive a confirmação. Ela é gay!Assumida! O mesmo já havia acontecido com o apresentador Pedro Andrade do Manhattan Connection. Daí eu volto ao passado e faço um exame de consciência e lembro que de todos os homens os quais já vi na vida, alguns eram diferentes. Como eu olho sempre olho nos olhos das pessoas percebia que alguns olhares eram diferentes, não eram olhares 43, de interesse sabe, eram olhares certeiros, como um espelho talvez. Bastava uma fração de segundos. E chego a conclusão de que assim como eu percebi com certeza já fui percebido, ou detectado. E é isso! :)

Edilson Cravo disse...

Luciano:

Tem pessoas que nos confundem e deixam sempre aquela ? na cabeça...rs.
Linda semana. Abraços.

Luciano disse...

@Margot:
Eu acredito que o gaydar seja uma mistura de treino, observação e sobrevivência - e acho que alguns héteros também conseguem desenvolvê-lo. O item 'sobrevivência' é muito importante entre os gays porque desde muito pequeno é preciso desenvolver a habilidade de detetar ambientes e pessoas hostis.
Se você ler a mensagem do Aldo aí em cima vai ver que existem gays que não sentem o gaydar - embora sejam uma minoria. Da mesma forma, acho que há héteros que desenvolvem esta habilidade, e também são uma minoria.
Grande abraço e obrigado pela presença frequente!!
**

Margot disse...

Luciano, vc foi o primeiro(nas minhas leituras de blog) e com certeza não deixará de ser. É sempre um prazer. Gracias

Anônimo disse...

Verdade. Meu gaydar ficou afinadíssimo depois que entrei na universidade. Há muitos gays por lá rsrs.

Hoje em dia, ando pelas ruas identificando gays e automaticamente, sem eu nem forçar. Olho para a pessoa, mesmo que de longe, e algo no jeito do andar - ainda que de um cara enrustido - ou na forma de segurar o telefone já me faz desvendar o mistério.

Desconsideremos obviamente os caras que seguem a "moda gay": calça apertada, roupa xadrez, óculos enorme, cabelo meio extravagante... Só uma pessoa alienada não percebe...

E os clássicos gestos que também denunciam: desmunhecar, a voz...

O Gaydar só é considerado mesmo na hora de encontrar armariados ou gays bem másculos. Mas já estou craque rsrsrs.

Will